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VOANDO COM PASSARINHOS

Casimiro cantava saudoso seus oito anos; eu, mais precoce, canto meus sete. Tinha essa cabalística idade quando o padrinho me deu de presente um par de tênis. Eram os meus primeiros, lindos, inteiramente brancos, como minha alma menina. No peito, um vulcão em erupção latejava forte e foi com sofreguidão que calcei o presente e desembestei para a rua, a correr caminhos e ladeiras, a pisar cimentos e chãos de terra. Corria tanto que levantava atrás dos pés uma poeira vermelha, que rodopiava em remoinhos; com o canto dos olhos tentava surpreender dentro deles, também a rodar, um barretinho, também vermelho como a poeira — o Saci. Mas o danadinho se escondia direitinho atrás do pó. Mas não me enganava não: sabia que ele estava ali. Não ia perder tanto remoinho. E como era ligeiro o serelepe! Com uma perna só, corria tanto quanto eu.
            Cruzámos várias vezes, ele e eu, a pequena cidade onde nasci, na alta mogiana. Na estação de trem, os poucos passageiros, esperando sentados nos bancos de ripa, miravam-nos com seus olhos baços, olhos de despedida. Por que será que quem parte sempre leva tristeza na bagagem? Mas isto, eu penso hoje; naquele dia não pensava nada, só queria correr ao vento. Quando passávamos pela praça da matriz, na frente da igreja, eu me persignava, mas o Saci, não. Depois vim a saber que ele não se dava bem com o padre, que proibia sua entrada na igreja.
            Corríamos mais que o vento. E o vento, em represália, açoitava-me os cabelos com safanões, mas não conseguia evitar que um aroma de capim novo me entrasse pelas narinas, misturado com um perfume distante de bosta de cavalo. Passarinhos me acompanhavam voando sobre a cabeça, talvez por pensar que fosse eu, como eles, outro pássaro, a voar baixo.
            Corri e corri por muito tempo, sem cansar, pois o coração era novo e sem pecado.
            Ao fim do dia os tênis, impregnados de terra roxa e imprestáveis, desmanchavam-se em tiras descosidas. Os dedos dos pés, atravessando as meias puídas, lançavam olhares despudorados através das janelas que eles próprios haviam aberto na costura. A madrinha, santa mulher, tentou me esconder, mas o padrinho, severo, não se deixou iludir. Ele mesmo descalçou-me o par de tênis e lançou-o ao lixo; depois, tirou-me a camisa, para que não se estragasse com o que ia fazer, e também o calção. A tudo isso soube juntar uma cara fechada e um olhar furibundo. Então pegou a vara de marmelo, que fazia tempo dormia na parede.
            Naquela noite cantou alto no meu couro a maldosa varinha, mas mesmo assim fui dormir feliz.
           Pela janela do quarto, antes de pegar no sono, pude ouvir o barulho do vento no quintal, e dentro dele, um riso fino...

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