Rio! Rio de Heráclito, mutante e mutável, de imperturbada mutabilidade, constantemente em transformação, de minuto a minuto vindo a ser aquilo que antes não era. Com os minutos passam tuas águas e já não são mais agora o que foram no minuto anterior. És um outro rio e em ti não se pode banhar um mortal mais que uma vez, pois na segunda vez outro rio será. E ainda que, por absurdo, pudesses ser tu o mesmo rio, não seria mais ele o mesmo mortal a se banhar em ti; ele próprio teria se transformado, com a morte e substituição de células, atestando a verdade insofismável de sua definição – um simples mortal. Rio comprido, multifacetado, muitos rios em um só, que nasces do degelo da cordilheira, nas alturas rarefeitas – tímido corregozinho transparente – e encorpas ao te juntares a outras vertentes, e desces alucinado pelas escarpas rochosas, aonde tuas águas em corredeira vão...