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Mostrando postagens de dezembro, 2014

AMENDOIM TORRADO

            Binho já é quase homem, tem quase catorze anos e já é quase barbeiro no salão de seu pai. Ainda é meio oficial, aprende os últimos segredos da arte da tesoura e da navalha. Já não corta tantos queixos, nem faz muito caminhos de rato nos cabelos dos fregueses. Mais um pouco e será, com certeza, um bom oficial, como seu pai, não tão falante como ele pois é algo tímido. Introspectivo, já o era no tempo de engraxate, no mesmo salão do pai, tempo que passou depressa pois o moleque espichou rápido e é hoje um bitelo espigado, altura de homem feito. Só lhe falta carnadura, que virá com o tempo.             Binho estuda de manhã e vai para o salão depois do almoço. Lá pelas quatro da tarde uma fominha começa a apitar na barriga e ele fica na espera do som da matraca do vendedor de amendoim. Pontual como um britânico, às quatro e meia lá vem o homem agitando seu inst...

DESPERTAR

            Era no tempo da guerra. O menino já tinha sido desasnado, sabia ler, mas só lia gibis, para desconsolo do irmão mais velho. Dele ganhara um livro, Reinações de Narizinho, mas tinha muita letra e pouca figura. Gostava mesmo era do Gibi, que saía às 2ªs., 4ªs. e 6ªs. e do Globo Juvenil, às 3ªs., 5ªs. e domingos. Não demorou veio o Gibi mensal, com histórias completas a cada edição. Vivia ele dentro do mundo dos quadrinhos, participando das aventuras do Capitão Marvel, do Super-Homem, dos Príncipes Submarino e Ibis, este último com seu triângulo mágico que, acionado, satisfazia-lhe qualquer desejo. Sonhava o menino em ter ele também um triângulo só para si. Como era tempo de guerra os heróis viviam tendo aventuras contra os nazistas do Eixo. Só o Capitão América, quantos nazistas não nocauteou? Era um gosto vê-lo rodeado de alemães armados e ele distribuindo socos e sopapos, a torto e a direito, e os bandidos gritando H...

NA FILA

            Não sei se o leitor já percebeu; se não, preste atenção e confirmará: quase toda pessoinha idosa gosta de conversar. Homens e mulheres, velhos ou muito velhos, encontram momentos de felicidade quando estão em filas. É a oportunidade que têm de conversar com qualquer estranho que esteja a seu lado. Em poucos minutos o estranho se transforma em amigo e confidente. Se der tempo, a conversa será longa, quase sempre um monólogo, dividido por assunto em capítulos, ao final dos quais surge sempre o arremate: O senhor não acha? A gente sempre acha, ou por achar mesmo ou por educação.             Estava eu outro dia na fila do SUS, fila moderna, cada um com sua senha, aguardando chamada, sentado onde houver cadeira vaga, quando se senta ao meu lado um velho — que digo? —, um velhinho, alto e seco, mirrado, encurvado que só anzol de bagre. Pouco demorou para puxar con...

MESTRE CARTOLA

            Naquele tempo a Lapa ainda não tinha virado moda e a frequência de suas ruas e becos, assim que a noite fechava o céu, era de boêmios, malandros e prostitutas. A iluminação pública era fraca e, em vez de luz, lançava sombras. Contudo, sabia o povo que ali vivia, não tinha lugar mais seguro em toda a cidade. Vez ou outra um abusado levava uma navalhada na cara, mas era só para aprender.             Num beco, quase embaixo dos Arcos, havia um bar de nome sugestivo: Mestre Cartola. De dia fornecia pasto aos famintos do Largo da Carioca, de noite, música brasileira para quem dela tivesse fome. Modesto, sem luxo, mesas quadradas e cadeiras de vime, combinava com a freguesia despojada, de meia idade. Os mais jovens preferiam rock ou bossas novas e, se incautos sentassem a suas mesas, logo debandavam à procura de agitação maior.       ...