Já
vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha
Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta
anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo
invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a
desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do
primeiro filho, que nascerá em dois meses.
O
primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve
ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz
sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com
dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado
mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode
ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida seja mais lento, e Mariana
ainda seja uma jovenzinha de dezoito. Este ponto reforça a dúvida: será ou não
minha filha uma alienígena?
Sim
ou não, o fato é que em dois meses serei de novo avô. O neto estará nascendo
quando o bisneto já terá, creio eu, sete ou oito anos. Já fui melhor em guardar
datas de aniversário; hoje a memória tem falhado.
E
por falar em falha, não houve ela no caso. Não pensem que esqueci de mencionar
o nome do nascituro. Esqueci, não; é que ele ainda não tem nome. Os pais estão
indecisos. Durante o ano inteiro ficaram cogitando três nomes, aqueles dos
santos juninos: Antônio, João e Pedro, correndo por fora outro santo: Felipe.
Aliás, este, nem sei ao certo se é nome de santo.
Diz
a sabedoria popular que a necessidade obriga. Ninguém consegue falar, bem ou
mal, de coisa ou gente que não tenha nome. Como o assunto do próximo menino se
tornou um dos principais na família, minha mulher inventou de chamá-lo
Pimpolho. Não é que o nome pegou? Mesmo que ainda provisório, o garoto já tem
nome. Fui olhar no Aurélio: “criança pequena e robusta”. Tomara que assim seja.
Às
vezes demoro a pegar no sono porque tenho muitas ideias na cabeça; algumas
chegam a escapar pelas orelhas. Será que esse moleque, e todos os outros de sua
geração, será verdade que estão nascendo para conquistar o mundo? De que
estrela esses etês estão vindo? Sempre acreditei ser impossível que fôssemos
visitados por habitantes de outra estrela. A mais próxima de nós, a Alfa do
Centauro, está tão longe que sua luz leva mais de quatro anos para chegar à
Terra. E olha que a luz é bem ligeira: em um segundo dá sete voltas ao redor de
nosso planeta. Mas sei lá, talvez eu esteja enganado; quem sabe eles sejam tão
evoluídos que já saibam fazer algum “buraco de minhoca”, e em menos de uma
semana conseguem vir para cá.
Como
tenho essas ideias há mais de trinta anos, os receios que vinham junto com elas
foram diminuindo com o passar do tempo. A verdade é que a gente vai ficando
mais sábio com a chegada da velhice. Pena que não se possa aproveitar melhor a
idade da sabedoria; mal ela chega e a morte vem logo atrás.
Se
antes tinha receio, hoje até torço para que o Pimpolho e seus companheiros etês
tomem logo conta de nosso mundo. Chego até a lembrar do livro do Artur Clarke:
O fim da infância. Será que o homem era um visionário e previu nosso futuro? O
fato é que não é preciso ser velho para chegar à mesma conclusão que cheguei;
basta ter um raciocínio cartesiano, simples e claro. Como está nosso mundo
hoje? Efeito estufa, aquecimento global, derretimento de geleiras, aumento do
nível do mar, tornados furiosos, tufões devastadores, lixo por todos os lados,
plásticos na natureza e em nossos pulmões. O bicho homem tanto tentou que conseguiu:
está destruindo a vida em nosso planeta.
Já
tivemos trinta reuniões COP, e em nenhuma delas se conseguiu amenizar a
situação; ao contrário. Parece que o Homo Sapiens é, afinal, uma espécie
suicida. Não seria melhor que alienígenas tomassem conta do planeta?
Nasça
logo, Pimpolho. E cresça rápido. O futuro do mundo está em suas mãos.
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