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Mostrando postagens de setembro, 2011

MARIANA

            Previna-se de antemão: este é um libelo machista! Não se pretende enganar ninguém e por isto é justo que se advirta o leitor sobre minha crença na verdade profunda daquilo que dizia meu pai: “Negócio com mulher só é bom na cama, e assim mesmo a gente sai perdendo...” Às vezes se perde o sossego pelo resto da vida. É o caso, por exemplo, de quando a mulher quer um filho e o homem não. Ela sempre dá um jeito de extorquir a semente e fica grávida. Foi o que aconteceu comigo, ou melhor, com ela. Queria porque queria e ficou. Depois veio me mostrar o resultado positivo e zangou-se com a cara que fiz. O que ela queria? Na minha idade, mais um filho, começar tudo de novo, noites mal dormidas, adeus liberdade, imagina a minha cara. Mas, a bem da verdade, fique claro que eu não disse nada, nem uma palavrinha, menos ainda qualquer palavrão. A boa índole e a educação dominaram-me o impulso. Sabe que mesmo assim ela nunca me perdoou...

O DENTE

             A Gabriela vocês conhecem. Magra, um tanto espigada, de pernas longas. Gosta de se pintar com cores vivas e veste-se, de preferência, com saias curtas, bem acima dos joelhos. Quando não, usa-as muito compridas, arrastando ao chão. O gênio é bom, dá-se a todos com facilidade. Um pouco desconfiada, às vezes. Enfim, nada de extraordinário, que não combine com os seus seis aninhos.             Quando o pai chega do trabalho, à noite, ela se esconde atrás do sofá. Ele finge procurá-la e sempre grita de susto quando ela salta-lhe à frente, fazendo muito barulho. A cena termina com ela agarrada em seu pescoço e repete-se todas as noites, sem variação. A alegria, na infância, é simples, pouco exigente. Como tudo, aliás. A gente é que complica as coisas, quando cresce.             Uma noite, depois do ritual de costume,...

O BURRO DO ALFREDO

 (Contém pitadas de erotismo) Arrumei os negócios, dei instruções e fui. Chegando a Embirussu não encontrei mudança nenhuma. A mesma cidadinha morta, abrasada de sol, de quinze anos antes. Só estranhei as faixas e cartazes e os muros pichados de fresco. Corri à casa da tia e fui recebido com abraços, beijos e muito choro. — Que bom que você veio! Benza Deus, que homão bonito! Quem diria, hein? O menino mirrado que você era... Cruz, credo! Parecia até que não vingava. E olha só agora... Que boniteza! Se havia causado boa impressão na tia, a recíproca é que estava longe de ser verdadeira. Ela era um caco, magérrima e engelhada. E surda, ou quase, como percebi dali a pouco. Foi difícil a conversa. Era obrigado a falar alto, quase gritar. Indaguei de sua saúde, melhor seria dizer de sua doença, tantas e tão escabrosas foram as disfunções que me revelou. Concluiu dizendo que sua hora estava próxima, com o que acordei de foro íntimo, embora negando veementemente, também eu a berrar. Está...

GABRIELA

(Conto quase infantil) A Gabriela tem seis anos, é magrinha, cabelos curtos, cortados em franja na testa. Come pouco, mas tem a energia de um serelepe. Rosto vivo, sorriso aberto, olhar matreiro. De vestidinho curto, faz-me lembrar da Emília, do Lobato, nas antigas ilustrações do Belmonte de minha infância. Quando chego em casa, à noite, pula-me ao pescoço. Se trago pacote, quer logo desembrulhá-lo. — Pai trazeu presente para mim? — Trazeu, não, filha; trouxe. — Oba! — Mas não é para você; é para mamãe. — Manhê, o pai traz... "troche" presente para você! – e corre para a cozinha, carregando um sorriso e o pacote. – Deixa abrir? Deixa? Vou para o banheiro, mantendo a porta só encostada. Dali a pouco ela se abre e a Gabriela vem, como quem não quer nada. Vejo o vulto se movimentar de um lado para outro, atrás do acrílico translúcido. Dentro do box, a água jorra em minha cabeça ensaboada. Ela desliza devagar o anteparo e mostra a carinha. — Fecha a porta, filha, que está molhan...