O mulequim magrim peleosso joga bola descalço no gramado verde. Chuta corre atrás alcança. Chuta de novo, de novo corre atrás. Alcança. Sempre. No alto do céu o Sol com inveja derrama raios de domingo e brilha e rebrilha como um quadro amarelo de Portinari. Também eu, maduro, tenho inveja e quero voltar aos tempos verdes dos meus gramados de infância: leve magrelo, jogar bola até cansar e depois repousar com o amigo Casimiro debaixo das bananeiras e à sombra dos laranjais.
O mulequim magrim camisa 10 faz embaixadas com a bola branca de borracha alheio às voltas que o mundo dá, mundo que gira no espaço: bola azul. Será o mundo-bola-azul brinquedo de outro mulequim que chuta bola em gramados celestiais? Na cabeça do mulequim camisa 10 a certeza da não dúvida: cabeça de mulequim não foi feita para pensar vãs filosofias de Guilherme inglês. Cabeça de mulequim sabe o certo, Sol-domingo-bola-gramado só podem significar uma coisa: felicidade. Por isso corre. Corre atrás dela, com ela, dentro dela.
Oh que saudades que tenho do mulequim que eu era! Hoje, gordo pesado, passo a vida a comprar pedaços do mundo-bola-azul. A cada novo pedaço mais me sinto despossuído. Se são pedaços concretos por que me sinto tão vazio? Tanto dinheiro gasto — tanto — que não sobra nenhum para comprar bola-brinquedo. Não sobra nem lembrança. Não faço mais embaixadas. Pé esqueceu. Pé parado conta corrente saldo cifrão. Cadê meu tempo de criança, jogos de botão pela calçada? Cadê eu?
O mulequim a bola o gramado verde. O Sol amarelo de Portinari. O Sol e a inveja do mulequim. Eu o Sol e a inveja. O tempo. O tempo que passou: eu. O tempo presente: o mulequim e eu. O tempo futuro: só o mulequim. Tempo presente passado futuro. Formação transformação, eterna diversão da mente eterna que nem o pai do Fausto conseguiu explicar.
Sobra o quê?
No meu peito, a saudade do mulequim que eu era e um dia fui. No gramado verdim, o mulequim magrim que joga bola alheio ao peso da minha saudade.
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