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Mostrando postagens de 2019

BURACO NEGRO

“Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.”             Penso até que, matreiras que são, o nome de sua ciência resolveram trocar, hoje ela se chama tecnologia. O chaveiro que carrego no bolso tem dois centímetros e nele cabe toda a Enciclopédia Britânica. Desconfiado que sou, um dia o desmontei para ver o que tinha dentro: um quadradinho de metal do tamanho da unha de meu mindinho mais uma carreirinha de minúsculos grampos de prender papel. É ou não é bruxaria? Até mesmo o antigo idioma grego as bruxas conseguiram ressuscitar; hoje o mundo inteiro fala grego: é quilo, mega, giga, tera e por aí vai.             Conquistas da ciência vão se avolumando e não existem mais, como antigamente, sábios universais, agora só há especialistas. Experimente o amigo leitor ficar doente; até há pouco tempo bastaria procurar um médico e matava o assunto; hoje tem de saber ant...

PEQUENA HISTÓRIA SAGRADA

            Manifestação mais espetacular da Natureza, o fogo é ao mesmo tempo a mais reverenciada e a mais temida pelo gênero humano e isto se deve a seu poder criador e a seu poder destruidor. Nos tempos em que o homem antigo perambulava pelas paisagens geladas, à procura de alimento e abrigo, acostumara a se esconder do frio da noite dentro de cavernas. Não havia ainda domesticado um pedaço de fogo para aquecê-lo; ao contrário, o fogo que conhecia era um inimigo perigoso, proveniente de temporadas de raios, que caiam sobre árvores provocando incêndios. Desse fogo, que queimava seu alimento do dia seguinte, fugia espavorido, como animal que era e que sempre foi. Mas, diferente dos outros animais, tinha ele um defeito grave, era curioso. Um dia achegou-se de uma árvore em chamas e sentiu um calor bom, que espantava o frio com que o vento gelado lhe açoitava as costas. Daquele dia em diante, quando surgia a oportunidade, repetia ...

UMA VISITA DEMONÍACA

         O Demônio estava ali, sentado diante de mim. Não sei quanto tempo levei para perceber sua presença, absorto que estava na leitura do Fausto. De início pressenti uma mudança indefinível na luz, uma sensação de negrume envolvente, embora a página que lia estivesse mais clara do que nunca. Minha mão, o braço e até o pé, ao final da perna cruzada, mostravam-se intensamente iluminados e, no entanto, não se dissipava a impressão de negrura. A atenção na leitura não permitiu que eu percebesse que a pretidão era real e que engolira todas as formas da sala, tornando o pequeno círculo ao meu redor um oásis de brilho.          O comportamento da luz, naquele momento, fugia do padrão normal e contrariava as leis de reflexão. Nas noites de leitura — ultimamente quase todas — habituara-me a manter acesa apenas a lâmpada do abajur chinês. Sem outra fonte de luz a atenção se concentra mais facilmente nos serpe...

O ALEMÃO

Ave, amigo João! Há que tempo não nos falamos! Que estas mal traçadas o encontrem bem de saúde e paz. Cheguei a pensar em lhe ligar, mas Danilo achou melhor não incomodá-lo depois da cirurgia delicada por que você passou. Espero que voltemos a nos ver breve, sinto falta de nossos almoços e até de nossas brigas. Uma coisa me leva a fazer esta carta, uma preocupação: João, acho que estou perdendo a memória. Sei que quando a gente chega na idade em que estamos a memória começa a falhar, mas uma coisa é saber por ouvir dizer e outra é vivenciar. Como nascemos no mesmo e longínquo ano, fico curioso em saber se isso tem acontecido com você também. É algo assustador imaginar que a coisa possa evoluir e daqui a pouco a gente não lembrar de mais nada, ainda mais agora que a vida que a gente leva quase não tem mais presente e só passado. E se daqui a pouco nem ele mais tivermos, o que será de nós? A coisa começou com o esquecimento de palavras, não palavras complicadas, m...

TEORIA DA RELATIVIDADE

            O bicho homem é o bicho mais estranho que a mãe Natureza inventou. Isto pode parecer bobagem, mas não é, basta pensar um pouco, sem preconceito, e logo constatamos que é verdade. Mesmo que se compare a espécie humana com um ornitorrinco ou com um dinossauro do período jurássico, animais sem dúvida estranhíssimos, ainda assim o troféu continua a ser nosso. Somos os únicos que temos medo da morte e, apesar disso, únicos a destruir o planeta em que vivemos; somos os únicos que amam o próximo e os únicos que o assassinam; somos os únicos que entesouram riquezas, mas matamos o futuro em que seriam gozadas.             Por que somos assim? O que nos diferencia de todos os outros seres que a Natureza criou? Atrevo-me a responder: foi um pedaço de pau.             O homem é realmente um animal inventivo, in...

CLUBE DA BENGALA

            Na realidade nem clube é, apenas uma reunião de amigos que, lá por volta dos anos oitenta, resolveram se encontrar todo mês para jantar e jogar conversa fora. Estavam então em idade fértil trabalhando para construir o futuro, cada qual em sua área e segundo a competência. Para isso dispunham ainda da energia que sobrara da juventude recém ultrapassada. Conversavam de tudo, de serviço e de mulheres, de futebol e de mulheres, de filmes e de mulheres, de falta de dinheiro e ... de mulheres. Quando passava uma delas perto da mesa que ocupavam, se bom exemplar fosse, as cabeças rodavam nos pescoços para acompanhar, em seu apogeu tangencial, a órbita que a bela executava. Então, se o assunto da conversa tivesse sido outro, no ato era esquecido; voltavam a falar de mulheres.             Alguém se lembrou um dia de botar nome no grupo. Assunto sem importância, nem c...

ACONTECEU NO OUTRO MILÊNIO

(Memórias de um lembrador)             Era uma vez o menino que já fui um dia e suas reinações no milênio que já não é.             E é tudo verdade!             Só para mostrar como as coisas acontecem na vida da gente sem lógica ou razão, conto o sucedido em uma noite tenebrosa. Estávamos todos já deitados a caminho do sono, quando manifestei o desejo de dormir na casa de tia Diola, irmã de meu pai; morava ela a quase um quilômetro de distância. Naturalmente, com toda razão, a mãe disse não e mandou que eu dormisse; insisti, ela recusou novamente; comecei a chorar, queria porque queria; o pai entrou na história: cala a boca menino! A entrada do pai na história não era um bom sinal, geralmente terminava em surra. Avaliei a situação, não estava ficando boa para meu lado, mas com que cara ia desistir, depoi...