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Mostrando postagens de 2016

O PESO DOS ANOS

Pequeno ensaio sobre luz e sombras                Ele já vivera muito. Mais que no corpo, sentia na alma o peso dos anos. No corpo o peso não era uma metáfora, ali os anos pesavam sobre as vértebras, comprimindo-as. Movimentos antes banais agora lhe causavam dor; por vezes doía até sem se mover, caso do ciático da perna direita. Ele fazia alongamentos, fortalecia musculatura na academia, porém o resultado era pífio, teve que aprender a conviver com a dor. Evitava passos largos, movimentos bruscos, descia escadas se apoiando no corrimão, andava devagar, mancava. Se a dor era muita, tomava um comprimido. Assim foi vivendo, conformado mas não acostumado; ninguém se acostuma à dor, às vezes até se esquece dela, mas a malvada logo se incumbe de avivar a memória, como tirana que é.             Com a alma é diferente, não tem comprimido para dores d’alma. Certo q...

PRESSENTIMENTO

            Acordou às oito e trinta como de hábito. Aposentado, sem compromisso, podia levantar mais tarde, mas, metódico, respeitava hábitos como quem veste roupa velha. Nem seria agora, nesta altura da vida, que faria mudanças. Todo velho é conservador. Acordou, pois, mas antes de sair da cama pressentiu que o dia seria diferente.             Abriu a janela para deixar o sol entrar, como de costume, e ele, outro velho igualmente metódico, invadiu o aposento e, abusado, espojou-se sobre os lençóis amarfanhados. Contudo, demorou-se pouco; para confirmar que aquele seria realmente um dia diferente apagou-se logo, escondendo-se atrás de uma nuvem escura. Mandou, como se fosse um presente de até logo, uma lufada de ar fresco que arrepiou a nuca de Tonhão. Já sugestionado, olhou ele para a nuvem e teve a sensação estranha de um adeus.       ...

À LUZ DE VELA

            Leitor amigo, previno-te de início que lanço mão de um estratagema para obter tua atenção: o título desta crônica, que atraiu-me a mim também. Uso-o não por imaginação, que me é fraca, mas por prosaico incidente que é o faltar energia elétrica em minha morada. Acabo de acender um toco de vela que está a iluminar estas mal traçadas linhas. Oxalá possa alumiar também minha inspiração dormida e que a pouca quentura que irradia sirva de estímulo a que te conte alguma coisa de proveito. Certo que o bruxuleio da chama, que produz sombras que dançam, dificulta que o pensamento se fixe em alguma ideia e abre espaço para antecipada escusa.             Este pequeno busto de Dante, de meio palmo na mesa, projetado pela luz da vela, afigura-se enorme na parede, quase metro. A sombra, de perfil, destaca o nariz adunco do bardo florentino, traço característico de sua person...

NOITE DE GATOS PARDOS

            O vento gelado açoita-me o rosto, lufadas siberianas a lembrar-me que estou em Curitiba; penetra-me a pele, atravessa a bochecha e desperta uma dorzinha quase esquecida na dentina do molar esquerdo. Rajadas rodopiam por meus cabelos desmanchando as melenas tão criteriosamente desenhadas pela escova vespertina. Sorte que os alunos não me veem agora, toda desgrenhada, cabeça de Medusa.             O casaco leve, de paulista desprevenida, não consegue proteger-me o peito e o ar frio me envolve os seios, que se contraem em reflexo de defesa dardejando através dos mamilos enrijecidos uma estranha sensação de dor e prazer. Me invade também os brônquios, e esse duplo ataque do vento, por dentro e por fora, produz uma árvore de gelo nos pulmões e reduz a tamanho infantil a opulência narcísea de minhas mamas, estas mesmas mamas que até poucos minutos, na tepidez acon...

QUEM TEM BOCA VAI A ROMA

            Linda nasceu como toda criança, parecia um joelho enrugado, mas os pais, como todos os pais, acharam-na linda e Linda ficou seu nome. Há quem não crê, mas deve ter sido premonição. A menina logo se livrou das rugas, alisou a pele, curou brotoejas e se tornou um bebê bonito. Tinha cabelos negros sedosos, quando boa parte dos nenês são quase calvos exibindo, quando muito, ligeira penugem. Acompanhando a cor dos cabelos, dois olhos de jabuticaba madura luziam no rostinho corado e, se é verdade que por eles se vê a alma, surpreendiam a todos por transmitirem, com tão pouco tempo de vida, uma faísca de consciência acesa. Se não bastasse tudo isso, era ela o único bebê que algum dia nasceu ou nascerá no mundo com aquela boca. Nem Leonardo redivivo seria capaz de descrever ou pintar aquela boca. Não era grande, nem pequena, nem grossa, nem fina, nem vermelha, nem pálida; fugia dos extremos; era a perfeita boca aristotélica ...

POR FORA BELA VIOLA

            A tarde caía lenta e macia, como costumam cair os bêbados ao chão, pois têm um deus que os protege quando não está distraído. O Sol, outro distraído, ainda que não bêbado, já havia tropeçado na linha do horizonte e despencara pelo abismo que lá existe e que separa este lado do mundo do outro. Esquecido que é, todos os dias repete a mesma queda e nunca se alembra; é que não se machuca, sabe voar. Velho, talvez cansado, não abdica, porém, de seu papel de primeiro deus dos homens e, por onde passa e os encontra, vai dardejando seus raios de vida. Portentoso, narcisista, chega sempre esplendoroso no novo palco e não admite a concorrência de outros brilhos; manda na frente sua filha Aurora apagar as estrelas notívagas ou algum pedaço de lua boêmia. Vaidoso também, nunca deixa de portar sua capa translúcida, que vai arrastando pelo chão do céu e que continua a clarear este nosso lado mesmo depois dele já ter descido ao out...

A CAVALO DADO NÃO SE OLHA O DENTE

            Felipe, o Belo, espera com paciência o retorno do atendente. Uma mágoa vence seu desprendimento natural: está a poucos minutos de perder seu amado relógio. O moço da Caixa foi consultar o chefe sobre o valor que pode liberar no penhor do Rolex. Novo no cargo, explicou ter experiência com ouro e joias, mas não com relógios.             — Um minutinho só, meu senhor! — pedira ele.             Obviamente não levará apenas um minuto, há que se entender a simbologia das palavras. Enquanto esperamos, só para passar o tempo, poderíamos entrar na cabeça de Felipe e seguir seus pensamentos. Quem sabe não entenderíamos melhor a situação? Seguramente que no mundo real não teríamos como fazer esta mágica, porquanto, para entrar em sua cabeça, seria forçoso quebrá-la, e aí não mais encontraríamos pensamento algum, d...

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA

            O poeta Casimiro tinha saudade dos seus oito anos, de sua infância querida, ainda que, nela, não houvesse tido a seu lado os olhos azuis de Belinha. Naquelas tardes fagueiras, embaixo das bananeiras, não era ele mais feliz que Tiãozinho, quando este saía da escola de mãos dadas com a menina de olhos de céu. Almas leves, saltitavam como borboletas pelas alamedas bem cuidadas do aquartelamento militar. O sol, infiltrando-se pelo arvoredo, pintava de amarelo as pedras brancas da calçada produzindo, com as ilhas de sombra, um desenho infantil. Em cima dele os meninos aproveitavam para pular o jogo de amarelinha.             Filhos de oficiais aviadores, moravam em casas vizinhas e se viam diariamente desde sempre. Tão acostumados estavam um ao outro que nem se davam conta da importância dessa convivência. Desfrutar da companhia mútua era tão natural quanto beber...