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Mostrando postagens de 2013

PREGUIÇA

            Sexta-feira, fim de expediente, toca o telefone: Bruno.             E aí, meu velho, vamos para a noitada?             Sei não, canseira, aquele maldito inventário veio cair na minha mão!             Deixe os mortos pra lá e venha curtir os vivos, melhor dizendo, as vivas; Jane recebeu uma prima do interior e vamos sair os três; com você arredonda. Ontem conheci a tal prima. Rapaz, sabe a Sophia Loren do filme Girassóis da Rússia? Aquela mulher que você vive dizendo a mais linda do mundo? Pois é igualzinha, a prima, sem tirar nem pôr. Ê, sortudo que você é, queria eu! Pena que não posso. E aí, vai perder essa?             Sei não; vou pra casa, tomo um banho e depois a gente se fala.  ...

MACHADO ASSASSINO

            Benício é um burocrata, servidor nível médio de um ministério secundário, homem de poucas letras. Sua vida não teve nada de extraordinário e não seria matéria para nenhum romance ou novela, salvo o capítulo final, que, pelo inusitado, poderia merecer uma crônica.             É bem verdade que crônica alguma ficaria boa se explorasse só o lance final da tragédia de Benício. Necessário se faz contar alguns antecedentes para que a história tenha algum sentido. Mesmo assim, muitos ainda dirão que o último ato é um verdadeiro “non sense”. É que a humanidade é composta de crentes e de céticos e, por mais que se faça, sempre hão de existir os que duvidam, sejam quais forem as provas apresentadas. Não é para estes que escrevo, mas para o leitor normal, que acredita naquilo que se lhe conta, desde que o conto conserve alguma verossimilhança.    ...

A ÚLTIMA CONQUISTA

            O trem para, abre as portas e o homem entra, mas não se dá o trabalho de procurar lugar para sentar. Não há. De pé, empalma a guia de segurança e recebe, com alívio, o choque térmico do metal frio; pior se estivesse quente de outras mãos, pior ainda se úmido do suor delas. Lembra-se, divertido, do sonho de Dolores, que queria a ternura de mãos se encontrando para enfeitar a noite de seu bem. Ele as tem em aversão; prefere até, ao aperto de mãos, o cumprimento de cabeça, que pode vir acompanhado de ligeira inclinação, à maneira japonesa, quando pompa e circunstância o aconselhar. Mas sempre há quem insista em tomar-lhe da mão arredia e nela depositar humores; por isso cultiva o hábito de passar pela pia quando a casa torna. Ainda se fossem mãos de amada... Que raras são, pois na vida real, fora de romances e cinema, são pouquíssimos os amantes, ou por ser mesmo raro o amor ou por ter ele duração efêmera.  ...

DE MAMAS E MAMILOS

  (Com intervenção indignada do Amigo Leitor)                      A história que vou escrever é verdadeira, embora tenha alguma tinta de conto de fadas. Se parecer irreal, o defeito é meu, não da história.             Oriundo da velha bota, Matteo Massari emigrou ainda menino, com os pais, e julga-se tão brasileiro como eu e você. Nada mais justo: gosta de praia, futebol e mulher, como qualquer de nós, mas tem lá seu fetiche por peitos e aí a gente desconfia de algum gene norteamericano transviado. A seu favor, porém, ao contrário dos novos saxões, não os aprecia volumosos e sim bem formados, com linhas de protuberância suave a desenhar atrevidas curvas catenárias, que parecem desafiar as leis da gravidade, embora delas sejam produto. Gosta também, o homem, de mamilos salientes, ligeiramente escurecidos em relação à...

A PESCARIA

                      Fora mulher, não diria para não trair idade, mas sendo homem e escravo da verdade, não posso me furtar à confissão de que o caso se deu na década de 60. No entanto, para que não tenham de mim, falsamente, a imagem de um velho caquético, é de justiça esclarecer que era eu, à época, muito jovem, casadinho de novo e ainda preocupado em agradar a patroinha. Assim, quedava-me todo ouvidos para as histórias de pescaria do meu sogro, um alemão sacudido. O interesse fingido não tardou a despertar na teutônica cabeça a ideia de me obsequiar com um convite para tão excelsas aventuras. Sabido ser impossível brotar na cachola de um pescador a suspeita de que alguma criatura possa dela não gostar, foram impotentes os subterfúgios que tentei usar para fugir da pescaria, que foi peremptoriamente marcada para o domingo seguinte.       ...

PEGADAS

É tardinha. O Sol, perto do horizonte, tinge-se de vermelho, talvez ruborizado de vergonha de se deitar tão cedo. Sonolento, distraído, nem se dá conta de que deixa escapar raios enfraquecidos que nem aquentam mais. E no entanto, há poucas horas, dardejava espadas flamejantes que queimavam terra e mar e faziam evaporar águas, povoando de nuvens brancas o céu desabitado de deuses. Agora seus raios são oblíquos e tudo pintam com luz fantasmagórica, desenhando longas sombras pelo chão. Os seres, animados ou não, parecem se transfigurar e, inconscientes, transformam a realidade do mundo em um mundo novo. Neste novo mundo ando eu por esta praia, e meus pés vão pisando a areia úmida e nela deixando marcas. Não fosse oblíqua a luz do Sol, talvez nem percebidas seriam elas, mas, com a inclinação dos raios, fácil é se notar o contorno dos meus pés descalços, a pressão plantar, o desenho dos dedos. São pegadas frescas, que vêm se juntar a outras mais antigas, de pés que por aqui pa...

CAMISETA DESBOTADA

Caminho sob as sombras do arvoredo do Piqueri, com a camiseta da Ilha do Mel, velha companheira azul desbotada que não consegue mais disfarçar os puídos de excesso de uso, tão igual a mim. Amigos comentam, por que não troca, mal sabem eles a razão escondida, mais que isso, a desrazão; soubessem, zombariam. Não saberão. Não por mim, ao menos não pela boca, que controlo, mas e os olhos? Esses olhos ensandecidos podem ser traiçoeiros; vivo em febre e o calor pode por eles transbordar. Olhos não têm porta ou torneira que os feche, quanta vez se debulham em lágrimas na contramão da vontade do dono. É de sua natureza a traição. Mas por que me preocupo tanto? Que me traiam! Que revelem ao mundo este amor outonal, merecedor de castigo, contrário que é à normalidade humana. Somente à juventude é permitido o amor e que aproveitem bem dele os jovens, mas que se acautelem: ao virar a esquina o peso dos anos lhes cairá às costas. É justo que lhes seja interdito levar estes amores até o próximo ...

ZECA MONTANHA

              José Carlos Montanha nasceu mirrado, cresceu mirrado e mirrado se tornou. De grande conservou apenas o sobrenome. Criança frágil, foi saco de pancadas dos coleguinhas de escola; moço fracote, foi jogador reserva; homem feito, usado como padrão de insignificância. E, no entanto, tinha lá suas ambições. Queria ser feliz.             Desmentindo todos os axiomas das sete psicologias não era complexado, levava numa boa as gozações de que era alvo e até se divertia com elas. Esse bom gênio conseguia desarmar os espíritos e fazer amigos, que o estimavam com sinceridade.             Como todo José Carlos, seu apelido não podia deixar de ser Zeca; naturalmente começou como Zequinha, mas, com os anos, acabou mesmo por virar Zeca, evolução natural, comum aos inúmeros homônimos, porém, diferente destes,...

CADERNO NOVO

Comprei um caderno novo. Sem manchas, sem marcas, não fossem as vinte e poucas linhas paralelas em cada página, eu poderia imaginar estar diante da famosa “tabula rasa” dos filósofos. No entanto, as linhas horizontais, que se sucedem em intervalos idênticos, perfeitamente retas, dividem o espaço metodicamente e parecem induzir o mortal que por elas se aventure a caminhar direto, sem curvas ou atalhos. Bom para mim, que derrapo nas curvas e me perco nos atalhos. Contudo, apesar desta ligeira limitação, a página vazia, tábua limpa, aceita o que quer que eu escreva. Nela poderei dizer o que não foi dito, afirmar verdades novas, imaginar mundos e fundos, criar o incriado, qual um deus onipotente. Mas aí me lembro que Deus escreve certo por linhas tortas; talvez por isso os cadernos sejam feitos com linhas retas, para que o escritor não venha a se imaginar mais do que é. De qualquer modo, uma página em branco é sempre um convite, um desafio. É como o par de tênis novos que o moleque do...

ONTEM E HOJE

Naquela noite fria de fim de inverno meu pai esperava sozinho a invasão dos mineiros. Era o ano de 1932 e aquele moço de 24 anos, a bem da verdade, ainda não era meu pai, mas viria a sê-lo cinco anos mais tarde. A revolução constitucionalista de São Paulo havia inflamado o ânimo cívico da população da pequena cidade de Orlândia, ao norte do Estado, na região da alta mogiana. Voluntários se apresentaram para lutar pela causa, o meu pai um deles. Uma brigada foi formada e colocou-se, via telégrafo, à disposição do comando revolucionário da capital. A resposta não tardou a chegar: esperava-se a qualquer momento uma invasão das tropas de Minas Gerais, que deveriam vir, seguramente, pelo caminho que passava por Orlândia. A força local deveria impedir a qualquer custo o avanço do inimigo. Montaram-se sentinelas no topo da colina, dia e noite, para vigiar a estrada que vinha de São Joaquim. Os dias passavam lentos e as noites arrastadas, e nada dos mineiros. O número de sentinelas foi se ...