A noite é sem lua e seria estrelada não fosse dominada por espessa neblina. Ouve-se o marulho das ondas bem defronte ao banco em que Jonas está sentado, mas não se vê o mar, esconde-o a sopa de gotículas que se mistura ao ar tornando-o pesado e opaco. A luminária do alto do poste, mesmo ela com seus potentes watts, se encolhe dentro da névoa e, qual um olho senil, mal consegue espargir uma luz fantasmagórica sobre o semblante duro do rapaz. Poreja-lhe a testa um suor frio que, auxiliado pela umidade do ar, de tempos em tempos escorre em filetes por sua face crispada. Olhar fixo, corpo teso e mão cerrada são indícios da intenção temerária: hoje ele mata Florêncio. A orla está vazia, nenhum carro anda na rua numa noite como esta. Ocasionalmente passa algum ônibus com ninguém dentro, e nesse instante a luz de seus faróis varre em leque o asfalto molha...