Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2015

QUEM COM FERRO FERE...

            A noite é sem lua e seria estrelada não fosse dominada por espessa neblina. Ouve-se o marulho das ondas bem defronte ao banco em que Jonas está sentado, mas não se vê o mar, esconde-o a sopa de gotículas que se mistura ao ar tornando-o pesado e opaco. A luminária do alto do poste, mesmo ela com seus potentes watts, se encolhe dentro da névoa e, qual um olho senil, mal consegue espargir uma luz fantasmagórica sobre o semblante duro do rapaz. Poreja-lhe a testa um suor frio que, auxiliado pela umidade do ar, de tempos em tempos escorre em filetes por sua face crispada. Olhar fixo, corpo teso e mão cerrada são indícios da intenção temerária: hoje ele mata Florêncio.             A orla está vazia, nenhum carro anda na rua numa noite como esta. Ocasionalmente passa algum ônibus com ninguém dentro, e nesse instante a luz de seus faróis varre em leque o asfalto molha...

SOLITUDE

            A colina, inundada dos raios oblíquos do Sol poente, ainda há pouco irradiava a luz verde do gramado. Ido o Sol, a cor da grama desmaia em tons de cinza. Não demora e a pintura do chão vai se juntar ao cinza do céu num esforço de tornar indistinguíveis terra e ar.             O noviço galga a encosta em passos leves. É jovem e está só. Estivesse acompanhado de frei Alberto reteria o passo ao ritmo do ancião. Quantas vezes fizeram juntos este caminho e quanta filosofia gastaram! Estiveram então bem acompanhados dos doutores da Igreja, o sensual Agostinho e o cerebral Tomás de Aquino. Hoje o rapaz prefere estar só, tem de conversar consigo mesmo.             Chegado ao topo, Pedro (este é o nome do noviço) senta-se no gramado e olha o caminho percorrido. Lá embaixo, em meio de uma ciranda de mangueiras, o...

NUM PISCAR DE OLHOS

            Francisco não é primo do Papa nem devoto do santo homônimo, prefere o “Padim Ciço”, cabeça chata igual que só. Nascido em Pernambuco veio menino para São Paulo e hoje é metalúrgico. Progrediu bastante na vida, mas não tanto quanto um colega conterrâneo que acabou político. Esforçado sempre foi, e inteligente também, mas a sorte lhe sorriu   discreta, enquanto que para o outro ela gargalhou. Quem há de discernir o trabalho das fiandeiras?             Não foi fácil a infância de Francisco. De família numerosa, havia muita boca e pouco pão. Ele e os irmãos comeram aquele que o diabo amassou, e quase sempre nem esse tinha. Mas o nordestino é antes de tudo um forte, diz o ensino euclidiano, que cai bem em nossa narrativa e que talvez explique terem os irmãos crescido o devido, apesar das privações. Mas não muito, que a genética do sertanejo não facilita. ...

UM PEDAÇO DE MAU CAMINHO

             Em menina era Margarida. Nascera em família pobre, de periferia, mas tinha os olhos grandes, queria ver-se longe, lá nos prédios altos. Sonhava em ser princesa. O corpinho mal nutrido, sustentado por dois gambitos magros, foi crescendo mais que o prometido e ainda na adolescência prenunciava a mulher. A transformação em curso ia mudando o desenho original, os gambitos a virar pernas, os glúteos a se insuflar de carnes, os peitos a apontarem rijos. Os olhos continuavam os mesmos e o sonho igual, ser princesa. Na cabeça ainda de menina o desabrochar do ser não combinava mais com o nome prosaico, Margarida. Urgia fosse ele também melhorado. E assim surgiu Margareth, com teagá, à moda da realeza. Foi por essa época que a moça conheceu Marquinho.              Rapaz crescido, mais de metro e oitenta, morava nos prédios altos. Nascera Marcos, crescera Marcão entre a...

PROMETEU

                Era uma manhã clara, o carro de Apolo já percorrera um quarto do caminho e sua luz reverberava nas anfractuosas faces da montanha. Neste fim de mundo ignorado minha busca terminara. Lá estava ele, gigante sofrido, imponente apesar das eras, belo como soem ser os visionários, puro como são os de coração generoso. E, no entanto, acorrentado. Preso em cadeias mágicas, o dorso encostado à rocha nua, o ventre desprotegido e ferido a gotejar sangue divino. Fiz-lhe a pergunta:                  - Por quê, oh sublime titã, por que foste ajudar o homem?                  Não me respondeu. Olhou-me apenas, e naqueles olhos negros vi brilhar a luz de uma fé imorredoura. Fé em nós, que não fizemos por merecê-la. Senti-me humilhado e, com vergonh...

O HOMEM EVANESCENTE

            Da Silva nasceu no ano de 39, junto com a Grande Guerra, Se fosse alguém importante os jornais do dia seguinte noticiariam NASCEU DA SILVA; vieram, porém, apenas com as manchetes da guerra. Desta maneira simples o mundo costuma demonstrar seu desinteresse pelas pessoas comuns, e Da Silva era uma pessoa comum, o mundo ainda não sabia que ele viria a ser no futuro o Homem Evanescente. Sei-o eu, não porque o narrador de histórias quase sempre sabe tudo, mas porque o conheço pessoalmente, somos amigos e, mais que isso, sei-o porque o futuro já chegou aos dias de hoje e agora só não o sabe quem é distraído.             Sua infância foi tranquila, longe daquela guerra, pois nascera ele em uma das repúblicas da sempre atrasada América do Sul e, por aqui, não importamos as guerras dos outros, bastam-nos as nossas. Da Silva comeu e bebeu o que lhe foi ofertado, brincou...

CARAPINHA BRANCA

            A manhã não nasceu ainda, mas vem logo. A noite, grávida de nove horas, empalidece e inicia os trabalhos de parto. Pinta a abóbada celeste de muitos tons de cinza, escuros no poente onde duas estrelas desmaiadas teimam em continuar piscando, e quase azuis no leste, já manchados de algum amarelo envergonhado. São os prenúncios do Sol, que vai escalando a linha do horizonte. Breve será dia, mas ainda antes dele irromper Bastião se abaixa no canto da praça e desfaz a tranca que prende a porta de aço ao chão. Neste momento uma janela se ilumina no prédio em frente e deixa escapar um feixe de luz que atravessa a penumbra da rua e, auxiliado pela brisa que brinca nas ramagens de um flamboyant, logra passar um pedaço de si por entre as folhas tenras, um tantinho suficiente para ricochetear na ondulação da porta da banca e atingir o pescoço e o lóbulo da orelha do jornaleiro, talvez numa vã tentativa de se fazer perceber. Ti...

O HOMEM QUE SUMIU NO ALMOÇO

            Mateus passara havia pouco dos setenta e continuava a ser o mais jovem integrante do Clube da Bengala, organização sem fins lucrativos destinada a promover reunião mensal de seus membros ao redor de uma mesa, tendo por objetivo alimentar estômagos e espíritos. O nome da entidade, porém, não pôde até hoje ser oficialmente declarado por sofrer impugnação de um dos sócios, o João, para quem o termo “bengala” é pejorativo. Prefere ele o nome Clube do Chope, que não trai a idade dos integrantes, nem remete a presumíveis dificuldades locomotoras. Os outros dois membros do clube, Lucas e Marcos, abstém-se de tomar partido nessa disputa, de modo que se mantém indefinido o nome do grupo. Do que já foi dito fica implícita a notícia de que são apenas quatro os seus componentes, mas nem sempre foi assim. Em épocas mais gordas o clube já teve seis integrantes, como dois já morreram, sobram, então, os quatro agora apontados. ...