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Mostrando postagens de 2017

DINOSSAUROS NA PRAIA

            Riobaldo costumava dizer, e repetia sempre, que viver é perigoso. De minha parte, concordo com ele, vivemos permanentemente rodeados de perigos. Um dos maiores é ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto, castigo que nós, filhos de Adão, pagamos até hoje pelo seu pecado. De todas as árvores do Éden só o fruto de uma lhe era interdito, o da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não podia ser mais humano nosso avoengo, comeu o fruto proibido, não tanto por ambição, creio eu, mas por simples curiosidade: como seria instigante conhecer o bem e o mal! Uma aventura!             Continuamos nós, ainda nos dias de hoje, sofrendo por causa de outras aventuras perigosas. Parece até herança do DNA antigo. Ao botar o pé na rua, ainda de manhãzinha, já encontramos perigo no enfrentamento do trânsito maluco de nossas cidades. Ao atravessar a Praça da Sé, ao m...

SILÊNCIO

            José Maria perambulava pelas ruas estreitas do centro velho e desviava dos corpos estendidos que ia encontrando pelas calçadas. Naqueles tempos de crise a população de moradores de rua havia aumentado e era frequente encontrá-los. A cidade crescera pelos lados do espigão e o progresso levara para lá bancos e escritórios e, onde antes eram mansões de barões do café, agora se erguiam prédios e mais prédios que disputavam entre si quem chegaria mais perto das barbas brancas do porteiro do Céu.             O velho centro mantinha, contudo, um ar aristocrático com suas construções “art-déco” e postes de ferro preto. Bares nas esquinas, farmácias nas praças e, pelas ruas, magotes de gente em busca do comércio variado onde era possível se achar de um tudo. Em ruas especializadas podia-se garimpar de miudezas a preciosidades e José Maria acabara de entrar na ruela d...

CLEMÊNCIA

            Naquela manhã de sol Oto acordou e se surpreendeu velho, acabara de fazer oitenta anos. Era, com perdão da má palavra, um octogenário, deixara para trás a malfadada década dos setenta, quando estivera por diversas vezes à pique de soçobrar e chegava, então, ainda vivo aos oitenta. Agora ali estava ele, um Oto octogênico, quase um cacófato. Carregava ainda a lembrança dos setenta e, por isso, refreava com cautela aquele otimismo inocente que teimava em acompanhá-lo desde que se dera por gente. Era um novo começo. Quem sabe a sabedoria da idade pudesse ser o freio que faltava para segurar ilusórias esperanças. Sentiu ser chegada a hora de fazer um balanço final. Ele, que sempre olhara para frente, que fora muito prático em toda a vida, enquanto fazia a barba foi amadurecendo a resolução: deixaria por ora de olhar para o futuro — cada vez mais curto — e voltaria sua atenção para o passado, longínquo em anos e distante n...

PENUMBRA

            A Lua Cheia e a Noite são duas velhas senhoras e como tal devem ser respeitadas. Enquanto a Noite, dissimulada, esconde em seus escuros os sinais da idade, a Lua só faz isto em ocasiões de plenilúnio, quando a luz chapada que do Sol recebe permite algum disfarce. Contudo, basta surpreendê-la nos primeiros crescentes, ou nos últimos minguantes, e as marcas da antiga varíola se fazem notar em sua epiderme.             Embora velhas e diversamente vaidosas elas se gostam e, quando se encontram, dão-se a folguedos como se fossem duas gurias. Dançam pelo ar, onde se escondem atrás de nuvens distraídas, bailam pelo chão levantando poeira, brincam de esconde-esconde. O escuro da Noite, quando flagrado por algum raio de luar, derrete-se em penumbra e vão então, luz e penumbra, desenhando figuras de coisas e gente. Às vezes algum Vicente, à beira de mares mediterrâne...

CABELOS AO VENTO

            Júlio Leão nasceu no último dia do mês de julho e levou consigo o nome do mês e o nome do signo, este, por vontade materna. As mulheres quase sempre são místicas, o que é uma vantagem. Se a gente tem espinhela caída, uma simpatia e uma boa reza costumam resolver o problema.   Apenas a época do nascimento não foi de todo conveniente, tempo de guerra. Mas aí não havia escolha, o comando era das fiandeiras do destino. Ainda que longe dos campos de batalha o país sentia seus efeitos. A vida era difícil, com carestia e racionamento de gêneros; por vezes faltava até o pão de cada dia. Contudo, se é verdade que água fria tempera o rubro aço, a dificuldade serviu para forjar-lhe o temperamento forte. Apesar das privações teve ele uma infância feliz, não lhe faltaram os jogos de botões pelas calçadas.             Vivendo em cidade pequena não teve instrução além...

SOMBRA E SOL

SOMBRA E SOL               Lucas já passara dos cinquenta e ainda não aprendera, continuava depressivo. Creio mesmo que sempre o fora. Não tinha razão para tanto, pois sua vida era mansa, realizado na profissão, abonado em pecúnia, não tivera percalços de amor, nem fora avassalado de paixões. Pensando bem, talvez por isso tinha depressão. Conseguira adicionar a ela um pessimismo incurável, pois parecia aquela figurinha patética das histórias de quadrinhos, que anda sempre acompanhado de uma nuvenzinha de chuva sobre a cabeça. O Sol ilumina a cena e as outras figuras e só ele anda sob sombra e chuva.             Tem amigos, o nosso Lucas, mas não muitos. É inteligente e culto e sua conversa não chega a ser desinteressante. Um dia um deles abusou da franqueza e fez-lhe a sugestão: por que não procura um psiquiatra para tratar da depressão? Na hora Lucas ressabi...

ESQUECIMENTO

            Pronto, a luz está piscando, deve ter ligado.             O primeiro registro que faço é para agradecer ao amigo Alê, meu guru de modernidade, que ajudou a comprar este gravador lá na Santa Efigênia e me ensinou a lidar com ele. Culpa da Bebel, que me levou a consultar o senhor, dr. Antônio. Um geriatra! Só porque ela acha que estou ficando um tanto esquecido. Quando entrei em seu gabinete tive uma sensação de estranhamento, como pode um moço de pouco mais de trinta anos entender as coisas da velhice? Durante a consulta até brinquei com o doutor, falei que do seu nome não ia esquecer. Por quê? Porque era o nome de meu pai, que Deus o tenha. Pois não é que o senhor, dr. Antônio, até que me surpreendeu? Como todo médico, fez perguntas, escreveu   receita, pediu exame de sangue e, o que eu não esperava, quis que eu gravasse tudo que viesse a fazer durante ...

O SONHO DE MAQUIAVEL

            Certezas se derretem. Ingênuos os jovens que pensam que tudo sabem, seus saberes também serão derretidos. É do fado humano. Nosso engenho pode até se agigantar, mas fatalmente será um dia derretido, ação do Tempo, esse cadinho universal. Vejam nosso Clube da Bengala, nasceu forte e hoje está prestes a desaparecer. Éramos oito sócios, mas um desistiu, três faleceram e hoje somos apenas quatro: o decano Oswaldo, de saúde debilitada, que não tem comparecido às reuniões, eu, Hermes e João. Três, que sobramos, nos encontramos a cada quinzena com o objetivo de manter vivo o moral da tropa. Não sei até quando, pois já passamos dos verdes anos e cataratas e lumbagos têm afligido nossas existências. A finalidade do Clube já foi dita: manter vivo o moral da tropa.             Aposentados, nos reunimos em almoço para falar de tudo. Antigamente, de mulher, nosso assunto...