A noite, displicente, vai engolindo as horas com lentidão, sem romper o silêncio, que pesa como um sólido na penumbra da sala. A claridade do quebra-luz se derrama concentrada sobre o livro aberto em meu colo, não chegando a perturbar a sonolenta escuridão que abocanha uma parte de mim. Um observador descuidado julgará que leio, mas se prestar atenção perceberá que meu olhar não tem foco, que atravessa as páginas, perfura o chão de tábuas e transpassa o próprio planeta, pois ao infinito mira. Estou tão absorto que não ouço o silêncio, nem mesmo ao ser quebrado pelo uivo do vento. O carrilhão continua a bater as horas, mas bate para si mesmo ou para o mundo lá fora, não para mim, que permaneço ausente.
De repente – estranha mudança de sensibilidade e percepção – um simples ruído na vidraça, um toque-toque raspado, semibatido, como se causado por garras ou bico de pássaro, é suficiente para me arrancar do estado cataléptico e me faz estremecer. Viro vagarosamente a cabeça para a janela enquanto penso que preciso podar essa árvore. Sei que o barulho não é de ave, muito menos do corvo de Poe que, sem razão alguma, me vem à cabeça. Não existem corvos nestas paragens. É apenas o ipê. De fato, na janela não vejo ave alguma, nem mesmo o vento, que se disfarça atrás do vidro, mas surpreendo a Lua minguante, mal oculta em farrapos de nuvens negras, e que envia por seus cornos esgarçados um ou outro raio de pálida luminosidade. Talvez a Lua, talvez o vento, mais certo quem sabe meus depauperados nervos, fizeram-me lembrar do corvo de Poe. Seria esta uma noite propícia para uma tal visita. Mas não tem ninguém lá fora. Lá fora o mundo está a dormir, indiferente, enquanto aqui dentro nos confrontamos eu e o abismo da minha solidão.
– Ah, Laura!
O bico que fere a vidraça é apenas o galho de um ipê sem flor e sem folhas – seco como eu.
Retomo uma vez mais a leitura, de novo desde o começo. Quantas vezes já recomecei? Mas os olhos teimam em se desfocar, as letras pulam fora das sílabas e as palavras, do pensamento. As linhas se dissolvem numa sopa de letrinhas. Nada faz sentido.
– Ah, Laura, por que fostes embora?
Olho para a mão, espalmada sobre a página, e pela primeira vez na vida me sinto velho. Nunca dantes reparara nesta pele ressequida e na figura de delta que os tendões dos dedos formam sob ela – um desenho lógico que no entanto é prejudicado pela cordoaria caótica das veias. Logo um tremor vem sacudir esta mão estranha, que não se sente bem em ser observada e pudicamente se refugia embaixo da contracapa do livro.
Ah, a mulher! Ao mesmo tempo sublime e enigmático ser. Quando vamos entendê-la? Nem mesmo os grandes filósofos, jamais chegaram perto disso. Este aqui mesmo, em meu colo, Schopenhauer, passou bem longe: achava que ela é menos inteligente que o homem, e encontrou a prova disso no tamanho do nariz. Não explica por quê, mas sentencia as mulheres à inferioridade porque têm narizes menores.
Ah, o nariz de Laura! Tão pequeno e mimoso que eu a chamava de minha Cleópatra.
Quanta besteira há de se encontrar nos grandes homens! Basta que se procure. São as mulheres os pés de barro do gigante, o ponto em que eles convergem com a humanidade medíocre e com suas presunções desmedidas. Este alemão mesmo, não passa de um excêntrico pessimista, um mal amado, mas outros que não, também andaram a destilar asneiras. Ali na estante, aquele volume vermelho, Montaigne, um francês de bom-senso, pois não deitou também falação torta sobre as mulheres? Não afirmou serem as coxas as melhores amantes? Por um singular mecanismo de compensação, desenvolveriam elas um redobrado vigor na sua libido. Tivesse nosso Machado se lembrado de Montaigne, provavelmente não teria permitido que seu Brás Cubas desprezasse o amor da vizinha dos altos da Tijuca: “Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca [...] por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?”
Laura não é coxa. Mas não fica nada a dever às amantes flamantes de Montaigne. Ah, por que me lembro disto agora, nesta noite fria em que mais falta me faz o calor dela?
O carrilhão bate as três horas. Angustiado, velho – pois é assim que agora me sinto – olho para a janela à procura da Lua, mas torno a ver apenas o vento invisível. A estas horas, é certo, a Lua já terá se alçado por sobre o telhado da casa. Quem sabe estará sendo vista por Laura? Mas, não, não deve de estar acordada. Por que estaria? Não padece conflitos nem remorsos. Partiu por acreditar que assim me presta um favor e terá por certo o sono dos justos. Disse-me na saída – será melhor para ti. Que sabe ela de mim se nem eu mesmo me sei?
Não há lógica no mundo. Nem na vida. Quantas vezes o benfeitor quer proteger e acaba por causar dano maior? Ali mesmo, naquela prateleira, o livrinho azul, Descartes, quem mandou ele se colocar sob a proteção da rainha da Suécia? Deu-se mal. Nascido de sete meses, conseguiu carregar pela vida sua fragilidade, mas não resistiu ao inverno sueco: morreu de pneumonia. Não tivesse por si a rainha benfeitora e teria vivido mais alguns anos. Este outro velho – que sou eu, que assim me sinto – sofre também duro golpe por causa de sua mente cartesiana. Fosse menos cerebral e talvez Laura não me houvesse abandonado. E, no entanto, nem tão cartesiana era esta mão quando acariciava o corpo dela, embaixo dos lençóis. Deslizava sobre a pele em viagem louca, pelos caminhos do ventre e do púbis, para depois subir lenta até o umbigo; continuava, epicureamente, pelo promontório dos seios, e por eles volteava, como que esquecida, para em seguida descer de novo, e subir, e descer, até que, saciada, repousasse na espera de que o sono lhe viesse adormecer sentido e consciência.
– Ah, Laura! E agora?
O olhar me perde outra vez no infinito. O carrilhão bate as quatro horas. Agito-me. Cada pancada ressoa em meu crânio torturado e reverbera nos nervos doloridos. Depois, o silêncio. Um silêncio escuro, de cuja profundidade vai surgindo um ruído indefinido, como algo a ser raspado... A janela! Sim, é a janela. O galho do ipê, tocado pelo vento. Não me dou o trabalho de olhar. Estou cansado, deprimido. Preciso dormir. Mas a cama vazia me assusta. Cama sem Laura. Tenho medo do escuro da sala. O cérebro cartesiano volta aos temores infantis e a sensibilidade enferma me domina o ser. Sem razão e sem misericórdia a memória evoca de novo a imagem do corvo de Poe. Por certo deliro.
O ruído na vidraça aumenta. O raspar virou batida. Mas não batida de galho: batida de bico de ave. Batida de corvo. Sei que não é real. É apenas o galho do ipê. Preciso podar essa árvore! Mas o corvo insiste em desmentir a realidade: continua a bater no vidro, cadenciadamente, como se fosse uma mensagem cifrada em código telegráfico. Por certo vem me lembrar que não tenho mais Laura, que nunca mais terei o aconchego de seu corpo, nunca mais, a maciez de sua pele, nunca mais, o embalo de sua voz... Sei que não é real, sei que é uma alucinação de mente torturada, mas mesmo assim um calafrio me percorre a medula quando ouço essa improvável e rouca voz lançar a sentença terrível:
— Nunca mais!
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