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Mostrando postagens de dezembro, 2015

QUEM COM FERRO FERE...

            A noite é sem lua e seria estrelada não fosse dominada por espessa neblina. Ouve-se o marulho das ondas bem defronte ao banco em que Jonas está sentado, mas não se vê o mar, esconde-o a sopa de gotículas que se mistura ao ar tornando-o pesado e opaco. A luminária do alto do poste, mesmo ela com seus potentes watts, se encolhe dentro da névoa e, qual um olho senil, mal consegue espargir uma luz fantasmagórica sobre o semblante duro do rapaz. Poreja-lhe a testa um suor frio que, auxiliado pela umidade do ar, de tempos em tempos escorre em filetes por sua face crispada. Olhar fixo, corpo teso e mão cerrada são indícios da intenção temerária: hoje ele mata Florêncio.             A orla está vazia, nenhum carro anda na rua numa noite como esta. Ocasionalmente passa algum ônibus com ninguém dentro, e nesse instante a luz de seus faróis varre em leque o asfalto molha...

SOLITUDE

            A colina, inundada dos raios oblíquos do Sol poente, ainda há pouco irradiava a luz verde do gramado. Ido o Sol, a cor da grama desmaia em tons de cinza. Não demora e a pintura do chão vai se juntar ao cinza do céu num esforço de tornar indistinguíveis terra e ar.             O noviço galga a encosta em passos leves. É jovem e está só. Estivesse acompanhado de frei Alberto reteria o passo ao ritmo do ancião. Quantas vezes fizeram juntos este caminho e quanta filosofia gastaram! Estiveram então bem acompanhados dos doutores da Igreja, o sensual Agostinho e o cerebral Tomás de Aquino. Hoje o rapaz prefere estar só, tem de conversar consigo mesmo.             Chegado ao topo, Pedro (este é o nome do noviço) senta-se no gramado e olha o caminho percorrido. Lá embaixo, em meio de uma ciranda de mangueiras, o...

NUM PISCAR DE OLHOS

            Francisco não é primo do Papa nem devoto do santo homônimo, prefere o “Padim Ciço”, cabeça chata igual que só. Nascido em Pernambuco veio menino para São Paulo e hoje é metalúrgico. Progrediu bastante na vida, mas não tanto quanto um colega conterrâneo que acabou político. Esforçado sempre foi, e inteligente também, mas a sorte lhe sorriu   discreta, enquanto que para o outro ela gargalhou. Quem há de discernir o trabalho das fiandeiras?             Não foi fácil a infância de Francisco. De família numerosa, havia muita boca e pouco pão. Ele e os irmãos comeram aquele que o diabo amassou, e quase sempre nem esse tinha. Mas o nordestino é antes de tudo um forte, diz o ensino euclidiano, que cai bem em nossa narrativa e que talvez explique terem os irmãos crescido o devido, apesar das privações. Mas não muito, que a genética do sertanejo não facilita. ...

UM PEDAÇO DE MAU CAMINHO

             Em menina era Margarida. Nascera em família pobre, de periferia, mas tinha os olhos grandes, queria ver-se longe, lá nos prédios altos. Sonhava em ser princesa. O corpinho mal nutrido, sustentado por dois gambitos magros, foi crescendo mais que o prometido e ainda na adolescência prenunciava a mulher. A transformação em curso ia mudando o desenho original, os gambitos a virar pernas, os glúteos a se insuflar de carnes, os peitos a apontarem rijos. Os olhos continuavam os mesmos e o sonho igual, ser princesa. Na cabeça ainda de menina o desabrochar do ser não combinava mais com o nome prosaico, Margarida. Urgia fosse ele também melhorado. E assim surgiu Margareth, com teagá, à moda da realeza. Foi por essa época que a moça conheceu Marquinho.              Rapaz crescido, mais de metro e oitenta, morava nos prédios altos. Nascera Marcos, crescera Marcão entre a...