Pequeno ensaio sobre luz e sombras Ele já vivera muito. Mais que no corpo, sentia na alma o peso dos anos. No corpo o peso não era uma metáfora, ali os anos pesavam sobre as vértebras, comprimindo-as. Movimentos antes banais agora lhe causavam dor; por vezes doía até sem se mover, caso do ciático da perna direita. Ele fazia alongamentos, fortalecia musculatura na academia, porém o resultado era pífio, teve que aprender a conviver com a dor. Evitava passos largos, movimentos bruscos, descia escadas se apoiando no corrimão, andava devagar, mancava. Se a dor era muita, tomava um comprimido. Assim foi vivendo, conformado mas não acostumado; ninguém se acostuma à dor, às vezes até se esquece dela, mas a malvada logo se incumbe de avivar a memória, como tirana que é. Com a alma é diferente, não tem comprimido para dores d’alma. Certo q...