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Mostrando postagens de novembro, 2016

O PESO DOS ANOS

Pequeno ensaio sobre luz e sombras                Ele já vivera muito. Mais que no corpo, sentia na alma o peso dos anos. No corpo o peso não era uma metáfora, ali os anos pesavam sobre as vértebras, comprimindo-as. Movimentos antes banais agora lhe causavam dor; por vezes doía até sem se mover, caso do ciático da perna direita. Ele fazia alongamentos, fortalecia musculatura na academia, porém o resultado era pífio, teve que aprender a conviver com a dor. Evitava passos largos, movimentos bruscos, descia escadas se apoiando no corrimão, andava devagar, mancava. Se a dor era muita, tomava um comprimido. Assim foi vivendo, conformado mas não acostumado; ninguém se acostuma à dor, às vezes até se esquece dela, mas a malvada logo se incumbe de avivar a memória, como tirana que é.             Com a alma é diferente, não tem comprimido para dores d’alma. Certo q...

PRESSENTIMENTO

            Acordou às oito e trinta como de hábito. Aposentado, sem compromisso, podia levantar mais tarde, mas, metódico, respeitava hábitos como quem veste roupa velha. Nem seria agora, nesta altura da vida, que faria mudanças. Todo velho é conservador. Acordou, pois, mas antes de sair da cama pressentiu que o dia seria diferente.             Abriu a janela para deixar o sol entrar, como de costume, e ele, outro velho igualmente metódico, invadiu o aposento e, abusado, espojou-se sobre os lençóis amarfanhados. Contudo, demorou-se pouco; para confirmar que aquele seria realmente um dia diferente apagou-se logo, escondendo-se atrás de uma nuvem escura. Mandou, como se fosse um presente de até logo, uma lufada de ar fresco que arrepiou a nuca de Tonhão. Já sugestionado, olhou ele para a nuvem e teve a sensação estranha de um adeus.       ...

À LUZ DE VELA

            Leitor amigo, previno-te de início que lanço mão de um estratagema para obter tua atenção: o título desta crônica, que atraiu-me a mim também. Uso-o não por imaginação, que me é fraca, mas por prosaico incidente que é o faltar energia elétrica em minha morada. Acabo de acender um toco de vela que está a iluminar estas mal traçadas linhas. Oxalá possa alumiar também minha inspiração dormida e que a pouca quentura que irradia sirva de estímulo a que te conte alguma coisa de proveito. Certo que o bruxuleio da chama, que produz sombras que dançam, dificulta que o pensamento se fixe em alguma ideia e abre espaço para antecipada escusa.             Este pequeno busto de Dante, de meio palmo na mesa, projetado pela luz da vela, afigura-se enorme na parede, quase metro. A sombra, de perfil, destaca o nariz adunco do bardo florentino, traço característico de sua person...