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Mostrando postagens de novembro, 2021

A VIDA

  (Oração aos moços)             Esses moços! Pobres moços! Ah se soubessem o que eu sei... Não sabem o que a vida lhes reserva. O sol quente do verão será um sol frio no inverno. O viço das flores do jardim dura pouco, logo fenece. É o tempo que passa, é a vida que corre e o amanhã logo vira ontem. Mas afinal, o que é a vida? Diga lá meu irmão. Eu, quando jovem, subia as escadas pulando os degraus de dois em dois; agora, me apoiando no corrimão, claudico ao descê-las e subo arfante. O cancioneiro antigo e o seresteiro moderno, ambos cantam com entusiasmo as cores de sua aquarela... que descolorirá.             Viver é perigoso, diz e repete o Riobaldo. Viver é preciso, digo eu, contrariando o lema de Sagres: navegar não é preciso; viver é preciso. A vida, com suas agruras e sofrimentos, valerá a pena? Só se a alma não for pequena.       ...

JARDIM DE VIOLETAS

              O azul brilhante das pequenas violetas são pedaços refletidos do céu de meio dia. O sol lambe guloso as pétalas frágeis, aqueles coraçõezinhos tenros, lambe com pressa, com sofreguidão, pois sabe que logo mais aquela nuvem invejosa virá encobri-lo e lançar sombra em toda a praça; com ela trará uma brisa fresca que soprará sobre as flores, lenitivo àquela paixão maluca, que mais fere do que acaricia.             O canteiro de violetas é um dos quatro plantados, dois de cada lado do caminho de pedras brancas que liga a porta da igreja ao início da rua Quinze. São canteiros quadrados, e ao lado das violetas está o das margaridas. Separando os dois, outro caminho das mesmas pedras portuguesas, este mais estreito.             Neste calor de sol a pino poucas pessoas estão fora de casa. Se um observador estr...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...

UM COPO COM ÁGUA

  Naquela mesa tem um copo com água pela metade. Capítulo Um: Copo Quase Cheio             Sou, sempre fui, e acho que continuarei a ser. Apesar de mulher e negra, sou otimista. Os amigos brincam que é defeito de fabricação; mulheres normalmente se queixam de preconceitos, de serem maltratadas pelos homens, perseguidas e até violentadas. Eu, não. Nada disso sofri, por isso sou otimista. Mulher negra, então, aí elas se queixam mais ainda; além de sofrer tudo o que já foi dito, padecem também do preconceito da cor. Eu, também não. Aliás, minha cor de mulata sempre agradou aos homens; alguns até perdem o senso, chegam a endoidar. Verdade que não é só pela cor, mas por todo o resto. É certo que já tive meu tempo de maior glória, mas mesmo agora, chegando aos quarenta, ainda dou um bom caldo. Os tempos áureos já passaram, mas os de hoje ainda têm o seu brilho; não são poucos os marmanjos que ainda quebram o pescoço quando me vee...