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Mostrando postagens de setembro, 2016

NOITE DE GATOS PARDOS

            O vento gelado açoita-me o rosto, lufadas siberianas a lembrar-me que estou em Curitiba; penetra-me a pele, atravessa a bochecha e desperta uma dorzinha quase esquecida na dentina do molar esquerdo. Rajadas rodopiam por meus cabelos desmanchando as melenas tão criteriosamente desenhadas pela escova vespertina. Sorte que os alunos não me veem agora, toda desgrenhada, cabeça de Medusa.             O casaco leve, de paulista desprevenida, não consegue proteger-me o peito e o ar frio me envolve os seios, que se contraem em reflexo de defesa dardejando através dos mamilos enrijecidos uma estranha sensação de dor e prazer. Me invade também os brônquios, e esse duplo ataque do vento, por dentro e por fora, produz uma árvore de gelo nos pulmões e reduz a tamanho infantil a opulência narcísea de minhas mamas, estas mesmas mamas que até poucos minutos, na tepidez acon...

QUEM TEM BOCA VAI A ROMA

            Linda nasceu como toda criança, parecia um joelho enrugado, mas os pais, como todos os pais, acharam-na linda e Linda ficou seu nome. Há quem não crê, mas deve ter sido premonição. A menina logo se livrou das rugas, alisou a pele, curou brotoejas e se tornou um bebê bonito. Tinha cabelos negros sedosos, quando boa parte dos nenês são quase calvos exibindo, quando muito, ligeira penugem. Acompanhando a cor dos cabelos, dois olhos de jabuticaba madura luziam no rostinho corado e, se é verdade que por eles se vê a alma, surpreendiam a todos por transmitirem, com tão pouco tempo de vida, uma faísca de consciência acesa. Se não bastasse tudo isso, era ela o único bebê que algum dia nasceu ou nascerá no mundo com aquela boca. Nem Leonardo redivivo seria capaz de descrever ou pintar aquela boca. Não era grande, nem pequena, nem grossa, nem fina, nem vermelha, nem pálida; fugia dos extremos; era a perfeita boca aristotélica ...