O vento gelado açoita-me o rosto, lufadas siberianas a lembrar-me que estou em Curitiba; penetra-me a pele, atravessa a bochecha e desperta uma dorzinha quase esquecida na dentina do molar esquerdo. Rajadas rodopiam por meus cabelos desmanchando as melenas tão criteriosamente desenhadas pela escova vespertina. Sorte que os alunos não me veem agora, toda desgrenhada, cabeça de Medusa. O casaco leve, de paulista desprevenida, não consegue proteger-me o peito e o ar frio me envolve os seios, que se contraem em reflexo de defesa dardejando através dos mamilos enrijecidos uma estranha sensação de dor e prazer. Me invade também os brônquios, e esse duplo ataque do vento, por dentro e por fora, produz uma árvore de gelo nos pulmões e reduz a tamanho infantil a opulência narcísea de minhas mamas, estas mesmas mamas que até poucos minutos, na tepidez acon...