Caro leitor, leitora amiga, peço desculpa por tratar de um caso tão triste; deveria respeitar sua sensibilidade, já que impossível será respeitar uma presumível fé religiosa, no pressuposto de que ela exista. É que, lendo outro dia uma página de divulgação científica, fui chocado com uma informação que não diria fantástica, nem extraordinária, nem estonteante, pois todos estes adjetivos são anêmicos para definir a força do seu impacto, e à falta de conhecer outros mais expressivos fico na angustiante situação de não poder adjetivar a referida informação. É sem dúvida tão triste que pode abalar a fé do mais piedoso; como pode Deus, se ele existe mesmo, permitir uma catástrofe de tamanha proporção? Se às vezes a simples morte de um ente querido pode arranhar nossa fé, se até a visão de um cadaverzinho de criança desconhecida, palestina ou israelense, nos faz duvidar de Deus, como não nos sentirmos ultrajados (e aqui novamente falha a adjetivação) com o extermínio de todos os seres vivos que habitam não só uma galáxia inteira, com seus mais de duzentos bilhões de sóis, mas de todos os seres de duas galáxias inteiras, de todo tipo de vida que floresce na superfície, nos mares e nos ares dos planetas de mais de quatrocentos bilhões de sistemas estelares?
Faça-se aqui uma pausa para que o cérebro do amável leitor e da meiga leitora possa absorver e processar a informação e oxalá manter a sanidade. Aconselho que tentem fechar seu coração com a chave de um argumento que, contanto simplório, é o único que me ocorre: a catástrofe se situa muito longe de nós, a quatrocentos milhões de anos-luz de distância. Felizes daqueles que conseguirem se tranqüilizar com isso! Bem-aventurados os que comungam com o amortecimento da sensibilidade pela distância — longe dos olhos, longe do coração.
Este imenso armagedom está identificado pela ciência astronômica com o nome NGC 6240. Trata-se de duas galáxias em pleno processo de colisão. As imagens obtidas pelo telescópio ótico HUBBLE, complementadas pelo observatório de raios X CHANDRA, mostram que os núcleos massivos das duas galáxias estão em rota de colisão, viajando cada um deles a velocidade de 35 mil quilômetros por hora. Esses núcleos, como é habitual em toda galáxia, são buracos negros semelhantes ao que existe no centro da nossa própria Via Láctea, com massa equivalente a 300 milhões de sóis iguais ao nosso. Indicam as imagens que a distância entre os dois núcleos será vencida em 100 milhões de anos, quando se dará a colisão final. Será ela tão formidável que a energia produzida deverá extinguir toda forma de vida em ambas as galáxias.
Ora, direis, isso tudo só acontecerá daqui a 100 milhões de anos e, ainda por cima, a uma distância de 400 milhões de anos-luz; será o caso de tanta aflição desde já? E eu, no entanto, serei obrigado a dizê-lo: já aconteceu! A tragédia já ocorreu, e é fácil entender; as imagens que vemos das duas galáxias são produzidas pela luz que de lá partiu há 400 milhões de anos; na verdade, vemos NGC 6240 como era há 400 milhões de anos; ora, se naquela época faltavam 100 milhões de anos para se dar a colisão, este fato já ocorreu 300 milhões de anos atrás. Trilhões, quatrilhões, quintilhões, tantolhões de vidas ceifadas... Para quê? Onde estava Deus?
Sei que sempre haverá aquele que me diga, talvez batendo um tapinha nas costas, à guisa de consolo: “Mas, que é isso camarada? Deixa para lá... Já faz 300 milhões de anos! Esquece.”
Bendita pena de mim, solidariedade do meu sofrer, demonstração de boa vontade. Talvez por isso não direi a ele que igual destino nos espera, que também Andrômeda está em rota de colisão conosco, que um dia ela se chocará com a nossa linda Via Láctea...
Mas sempre haverá um observador distante que chore por nós.
E outro que o console.
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