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Mostrando postagens de junho, 2016

A CAVALO DADO NÃO SE OLHA O DENTE

            Felipe, o Belo, espera com paciência o retorno do atendente. Uma mágoa vence seu desprendimento natural: está a poucos minutos de perder seu amado relógio. O moço da Caixa foi consultar o chefe sobre o valor que pode liberar no penhor do Rolex. Novo no cargo, explicou ter experiência com ouro e joias, mas não com relógios.             — Um minutinho só, meu senhor! — pedira ele.             Obviamente não levará apenas um minuto, há que se entender a simbologia das palavras. Enquanto esperamos, só para passar o tempo, poderíamos entrar na cabeça de Felipe e seguir seus pensamentos. Quem sabe não entenderíamos melhor a situação? Seguramente que no mundo real não teríamos como fazer esta mágica, porquanto, para entrar em sua cabeça, seria forçoso quebrá-la, e aí não mais encontraríamos pensamento algum, d...

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA

            O poeta Casimiro tinha saudade dos seus oito anos, de sua infância querida, ainda que, nela, não houvesse tido a seu lado os olhos azuis de Belinha. Naquelas tardes fagueiras, embaixo das bananeiras, não era ele mais feliz que Tiãozinho, quando este saía da escola de mãos dadas com a menina de olhos de céu. Almas leves, saltitavam como borboletas pelas alamedas bem cuidadas do aquartelamento militar. O sol, infiltrando-se pelo arvoredo, pintava de amarelo as pedras brancas da calçada produzindo, com as ilhas de sombra, um desenho infantil. Em cima dele os meninos aproveitavam para pular o jogo de amarelinha.             Filhos de oficiais aviadores, moravam em casas vizinhas e se viam diariamente desde sempre. Tão acostumados estavam um ao outro que nem se davam conta da importância dessa convivência. Desfrutar da companhia mútua era tão natural quanto beber...