De onde venho? Quem sou? Para onde vou? Eis a santíssima trindade das questões filosóficas. Princípio, meio e fim. Poucos têm a sorte de encontrar respostas. A mim coube a verdade revelada, não por um deus qualquer, que eles não acreditam em mim, mas pelo Diabo, que deve me julgar parceiro.
A primeira revelação se deu em Campos do Jordão, no hotel do Satélite, recém inaugurado naquele ano de 2001. Era agosto, muito frio, mais de meia noite, e lia eu as histórias extraordinárias de Poe, no salão das lareiras, quando o Diabo apareceu. Bem vestido, com paletó de tweed e cachecol vermelho, ostentava basta cabeleira e barba cerrada, ambas grisalhas. Sua elegância inglesa era acentuada pelo cachimbo polido, do qual se desprendia a fragrância inconfundível do tabaco London Moisture, da Dunhill.
Não me surpreendeu a aparição, pois tenho estado a vida inteira a esperar por ele. Espantou-me, sim, a lição profunda que transmitiu. Falou da madeira que queimava na lareira e mostrou que tanto um aristocrata jacarandá da Bahia, quanto um pinho plebeu, ou um sagrado cedro do Líbano, todos queimarão do mesmo jeito, e não importa de onde venha o pedaço de pau, sempre virará cinza. O que vale, na verdade, é a chama que produz. Tendo assim falado, evaporou-se, deixando em seu lugar uma fumacinha branca com cheiro de enxofre.
Na segunda vez apareceu ele na praia de Itanhaém. Devia ser meio dia e pouco, eu escarrapachado numa cadeira-preguiça, a tomar água de coco e a olhar o mar imenso. Embora trajasse apenas um calção de banho, ainda assim perguntava aos meus botões, quem somos nós, afinal? Foi aí que ele surgiu. Agora como um garotão de vinte anos, atlético, pele acobreada. Sentou-se ao meu lado, acendeu um inesperado charuto e foi dizendo sem rodeios: vê o mar aí em frente? Dentro dele vivem milhares de milhões de seres, de todos os tipos, microscópicos como os plânctons, poderosos como as baleias. Algum deles se pergunta, por acaso, quem sou eu? Não. Eles apenas vivem. Para isso foram criados. E dito isto, dissolveu-se na fumaça do charuto, deixando de novo no ar um leve traço de enxofre.
Na terceira e última vez, o Demônio me apareceu em Albuquerque, em pousada de pesca. Foi agora mesmo, em março, pouco depois do jantar, lá pelas nove horas. Veio desta vez encarnado em um caboclo de pele curtida, desses que tanto pode ter 60 como 80 anos, dado que o couro judiado de sol parou de contar idade. Pitava um cigarrão de palha de honesto fumo goiano. A Lua no céu do poente, à meia altura, em quarto crescente, boiava como se fosse um prato de sopa desenhado por Niemayer.
O Diabo, desta feita, puxou conversa e foi desfiando um rosário de “causos”. Conversa mansa de pescador, sem pressa de chegar ao fim. E foi assim, sem perceber, que recebi a terceira lição:
— O doutor veja, tem tanta gente que se preocupa com o que vem depois da morte, para quê, afinal, é que a gente foi criada? Alguns chegam mesmo a se desesperar de aflição. E para quê? O surubim que o doutor pescou de tardinha, para onde foi? Para a panela da dona Maria. E adonde está agora? Na barriga do doutor. E adonde estará amanhã? Pois veja: o bicho homem não é mais que o surubim...
Desmanchou-se, a seguir e, como das outras vezes, deixou no ar um odor de enxofre.
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