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Mostrando postagens de agosto, 2015

O HOMEM QUE SUMIU NO ALMOÇO

            Mateus passara havia pouco dos setenta e continuava a ser o mais jovem integrante do Clube da Bengala, organização sem fins lucrativos destinada a promover reunião mensal de seus membros ao redor de uma mesa, tendo por objetivo alimentar estômagos e espíritos. O nome da entidade, porém, não pôde até hoje ser oficialmente declarado por sofrer impugnação de um dos sócios, o João, para quem o termo “bengala” é pejorativo. Prefere ele o nome Clube do Chope, que não trai a idade dos integrantes, nem remete a presumíveis dificuldades locomotoras. Os outros dois membros do clube, Lucas e Marcos, abstém-se de tomar partido nessa disputa, de modo que se mantém indefinido o nome do grupo. Do que já foi dito fica implícita a notícia de que são apenas quatro os seus componentes, mas nem sempre foi assim. Em épocas mais gordas o clube já teve seis integrantes, como dois já morreram, sobram, então, os quatro agora apontados. ...

AMORA

            Impaciente, aguardo a noite chegar. Ajudam-me a Bíblia e um cálice de conhaque, uma no colo e o outro apoiado na mesinha ao lado. O livro me desafia: as letrinhas miúdas, aos olhos cansados e as alegorias, ao cérebro doente; a bebida forte me estimula, aquece-me as entranhas frias de ansiedade. Alguém dirá ser estranho o quadro, quase sacrílego, que beberagem não combina com leitura de livro sagrado. Mude-se, porém, o adjetivo para livro histórico e a cena será perdoada. Na qualidade de estudioso da cultura humana examino a Bíblia em seu caráter de importante documento, não como livro sagrado. Com esta disposição espero apaziguar crentes e ateus, todas as coisas têm sua hora.             Agora é a hora em que o dia acaba. Como moribundo, ele lança pela janela uma luz envergonhada, desbotada como um aceno triste de despedida. Pelo ar mortiço, lá fora, um casa...

OVO AZUL

            O carrilhão do mosteiro anuncia as seis horas, Marcos e Tavares batem ponto e descem. O elevador vai cheio de mulheres, perfumes e receitas, e de alguns homens e futebol; ninguém fala de serviço, é sexta-feira. Na rua o bloco se dispersa, poucos para o Largo de São Bento, a maioria em direção à Praça da Sé; só os dois pegam a Rua da Quitanda, destino Maria Antônia.             Têm muito chão para andar, mas ainda é cedo, o Sol só vai bater ponto daqui uma meia hora. Esconde-se ele, por enquanto, por detrás dos prédios, mas deve estar bem aceso pois as nuvens altas do oeste estão ruborizadas, quem sabe envergonhadas do olhar concupiscente que ele derrama nelas. A tarde, antes de se recolher a seu repouso, expira lentamente os últimos ares quentes que engolira enquanto foi dia. Mais um pouco, assim que o escuro lhe fechar os olhos, iniciará seu sono de noite s...

O OLFATO É UM FATO

            Bem aventurados os que não têm nariz ou que os têm em pouco uso. A humanidade seria mais feliz sem eles, privada do cheiro de urina das calçadas de nossas cidades, protegida do odor corpóreo de nossos semelhantes não afeitos ao banho diário, livre da agressão cotidiana dos perfumes, franceses ou não, que nossas mulheres insistem em nos impingir. Que felicidade seria aspirar um ar limpo de poluição! Como isso não é mais possível, abaixo os narizes!             Sei que serei tachado de retrógrado, não me importo, o gênio sempre foi incompreendido em seu tempo. A humanidade me tem por louco, também não me importo, luto para salvá-la. Sou altruísta, talvez visionário, mas continuo minha luta solitária em busca do bem geral. Neste subterrâneo de cientista louco, manipulando bicos de Bunsen e destiladores de vidro, entre provetas e cadinhos, persigo com destemor o...