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Mostrando postagens de 2020

O MAR

              Quanta gente já falou do mar! Um até cantou que é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar... Não concordo, acho que morrer é sempre ruim. Outro dizia que o mar é salgado por causa das lágrimas derramadas pelas mulheres de Portugal. Ora, qualquer contabilista habilitado certificará que o sal contido naquelas lágrimas nunca seria suficiente para salgar tanta água; Pancettis do mundo inteiro se notabilizam pintando marinhas que enfeitam os museus; escritores não se cansam de descrever cenas poéticas do pôr do Sol, quando ele mergulha no horizonte líquido, ou de raios da Lua a se banhar em suas águas negras. Quero eu humildemente juntar minha palavra pobre a essa cornucópia tão rica.             Antes de tudo quero relembrar uma verdade: o mar é mãe, mãe de todos os seres vivos que habitam nosso planeta azul, aliás, impropriamente chamado de Terra, quando de...

SONHO

              Primeiro uma explicação, depois, a história; uma sem outra é como pão sem manteiga. Quando alguém sonha, costuma ser a pessoa principal do sonho, tudo que acontece a ela se refere. Neste sonho que vou contar a coisa se complica: surpreendo-me, eu sonhador, incorporado a outra pessoa, que chamo de sonhado. É como se um ego tivesse invadido o corpo de outro ego, só que, ao contrário das histórias de terror, não existe dominação nem guerra entre eles; convivem placidamente. Contudo, somente um deles tem consciência da dualidade, o ego do sonhador, ou seja, o meu. O sonhado nem desconfia.             Esclarecido o ponto, vamos sem mais delongas ao prometido sonho, que por ser um tanto estranho, talvez até leve a desconfiar de incipiente esquizofrenia, tese que peço ao precavido leitor não abraçar porque, ao final do relato, encontrará justificativas.  ...

MISSA DO GALO

Ao Bruxo do Cosme Velho, com carinho.             — Deus meu, perdão! Foi loucura! um excesso! Ainda bem que o amigo do Bento chegou e ele teve de sair para a missa. Olha eu chamando o Bentinho de Bento! Estou nervosa, meu querido diário, peço não estranhar esta página tão diferente; deixe-me escrevê-la, preciso desabafar este sufoco; ao fim sempre se pode rasgá-la...             Assim começou a nova página do diário de Júlia de Albuquerque e Sousa, uma jovem senhora, casada com o tabelião José Brito de Macedo e Sousa. Já é bastante a inconfidência de revelar os nomes completos de personagens desta história, não vamos agora invadir a privacidade de um diário íntimo. Deixemo-la, pois; que continue a escrevê-lo; fiquemos pelas reticências.             Para entender tanta aflição voltemos os ponteiros do relógio; uns...