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Mostrando postagens de junho, 2017

PENUMBRA

            A Lua Cheia e a Noite são duas velhas senhoras e como tal devem ser respeitadas. Enquanto a Noite, dissimulada, esconde em seus escuros os sinais da idade, a Lua só faz isto em ocasiões de plenilúnio, quando a luz chapada que do Sol recebe permite algum disfarce. Contudo, basta surpreendê-la nos primeiros crescentes, ou nos últimos minguantes, e as marcas da antiga varíola se fazem notar em sua epiderme.             Embora velhas e diversamente vaidosas elas se gostam e, quando se encontram, dão-se a folguedos como se fossem duas gurias. Dançam pelo ar, onde se escondem atrás de nuvens distraídas, bailam pelo chão levantando poeira, brincam de esconde-esconde. O escuro da Noite, quando flagrado por algum raio de luar, derrete-se em penumbra e vão então, luz e penumbra, desenhando figuras de coisas e gente. Às vezes algum Vicente, à beira de mares mediterrâne...

CABELOS AO VENTO

            Júlio Leão nasceu no último dia do mês de julho e levou consigo o nome do mês e o nome do signo, este, por vontade materna. As mulheres quase sempre são místicas, o que é uma vantagem. Se a gente tem espinhela caída, uma simpatia e uma boa reza costumam resolver o problema.   Apenas a época do nascimento não foi de todo conveniente, tempo de guerra. Mas aí não havia escolha, o comando era das fiandeiras do destino. Ainda que longe dos campos de batalha o país sentia seus efeitos. A vida era difícil, com carestia e racionamento de gêneros; por vezes faltava até o pão de cada dia. Contudo, se é verdade que água fria tempera o rubro aço, a dificuldade serviu para forjar-lhe o temperamento forte. Apesar das privações teve ele uma infância feliz, não lhe faltaram os jogos de botões pelas calçadas.             Vivendo em cidade pequena não teve instrução além...

SOMBRA E SOL

SOMBRA E SOL               Lucas já passara dos cinquenta e ainda não aprendera, continuava depressivo. Creio mesmo que sempre o fora. Não tinha razão para tanto, pois sua vida era mansa, realizado na profissão, abonado em pecúnia, não tivera percalços de amor, nem fora avassalado de paixões. Pensando bem, talvez por isso tinha depressão. Conseguira adicionar a ela um pessimismo incurável, pois parecia aquela figurinha patética das histórias de quadrinhos, que anda sempre acompanhado de uma nuvenzinha de chuva sobre a cabeça. O Sol ilumina a cena e as outras figuras e só ele anda sob sombra e chuva.             Tem amigos, o nosso Lucas, mas não muitos. É inteligente e culto e sua conversa não chega a ser desinteressante. Um dia um deles abusou da franqueza e fez-lhe a sugestão: por que não procura um psiquiatra para tratar da depressão? Na hora Lucas ressabi...