Manhã fria, chuvinha teimosa, praia cinzenta. Mar, céu, tudo cinzento, sem contornos. Mundo inteiro sem cor, chumbo derretido, chumbo frio. Vento. Vento que machuca a cara, o peito, entra nos ossos, na medula, invade o cérebro, vazio de pensamento. Mar feroz, batendo na areia. Areia molhada, barraca úmida. Goteiras na costura (Impermeável, sim senhor! O melhor modelo, conforto de casa!). Tranqueira espalhada, fogão, panelas, crianças chorando. (Fuja da poluição! O campismo põe você junto à natureza. Ar puro, descontração, liberdade!). – São só duzentos quilômetros até Ubatuba – dizia o cretino do Paiva. – E você não vai querer passar a semana santa aqui, coçando o saco na frente da televisão. Vamos, homem, sacode esse corpo! De noite. Sono pesado, corpo doído. Mar subindo, perigo. (Essa agora!). Ondas rebentam como gengivas brancas mordendo a areia. Mulher grita. (Nossa Senhora!). Crianças choram. Chuva cai, vento corta. De dia. Chuvisco mi...