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Mostrando postagens de março, 2012

A GAROUPA ENTOCADA

            Manhã fria, chuvinha teimosa, praia cinzenta. Mar, céu, tudo cinzento, sem contornos. Mundo inteiro sem cor, chumbo derretido, chumbo frio. Vento. Vento que machuca a cara, o peito, entra nos ossos, na medula, invade o cérebro, vazio de pensamento. Mar feroz, batendo na areia. Areia molhada, barraca úmida. Goteiras na costura (Impermeável, sim senhor! O melhor modelo, conforto de casa!). Tranqueira espalhada, fogão, panelas, crianças chorando. (Fuja da poluição! O campismo põe você junto à natureza. Ar puro, descontração, liberdade!). – São só duzentos quilômetros até Ubatuba – dizia o cretino do Paiva. – E você não vai querer passar a semana santa aqui, coçando o saco na frente da televisão. Vamos, homem, sacode esse corpo! De noite. Sono pesado, corpo doído. Mar subindo, perigo. (Essa agora!). Ondas rebentam como gengivas brancas mordendo a areia. Mulher grita. (Nossa Senhora!). Crianças choram. Chuva cai, vento corta. De dia. Chuvisco mi...

B. O.

            O Senhor Doutor me desculpe, mas me dê licença para prestar queixa contra um cabra malvado de nome Donato de Jesus. Do Santo ele carrega só o nome, pois tem cara de boi sonso mas sua mansuetude é falsa: lobo em pele de cordeiro. Tem a boca carnuda de uma Iracema, mas que, ao contrário, destila, não o mel da virginal pessoa, mas uma peçonha de cheiro bom que atrai e cativa a incauta vítima que dela prove, e que torna a desgraçada para sempre viciada. Seus olhos, pretos da cor da noite profunda, brilhosos de jabuticaba madura, não são de humana espécie, são de lince e percebem a presa a qualquer distância, se aquém do horizonte esteja. E pobre dela que não mais lhe escapa. Artimanhas de raposa: de início, possui ele a delicadeza de um colibri beijando a flor e o toque suave de mãos de fada; mas não dá ponto sem nó, o danado. Água mole em pedra dura, quando do enlevo desperta a donzela e de si se dá conta, a vaca já foi para o brejo e a menina...