Sonhar é
normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre
nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se
pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se
não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam
sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem
pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido
comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou
um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos.
Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem
que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando,
deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco
costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos a se recordar. Disto
concluo que sou normal, dado que depois de longo período voltei a me lembrar
dos sonhos. Este normal, no entanto, não invalida o adjetivo antes aplicado,
continuo sendo um desajustado, como o leitor verá em seguida.
— Alto lá! Antes
que o amigo prossiga, não ficou faltando o presente?
— Como
assim?
— O senhor
falou em pessoas que sonham com o futuro e outras, com o passado; faltou falar dos
que sonham com o presente.
— Essas não
existem.
— Por quê?
— Porque o
presente não existe; é uma ilusão.
— Uma
ilusão?
— Sim, uma
ilusão. Dê-me um minuto e logo lhe explicarei. Deixe-me tomar antes um copo d’água.
Enquanto
vou até a cozinha tomar água, aproveito a pausa para explicar ao paciente
leitor que acabo de usar um estratagema muito aplicado por escribas de todo
gênero. A pessoa que me interrompeu com aquele “alto lá!” não existe; é somente
criação de estilo, que geralmente produz seu efeito, mas do qual não se deve
abusar. Conceda-me a licença e me permita agora, caro leitor, que dê em seguida
a explicação prometida àquela persona inventada.
Dizia eu
que o presente não existe, é só ilusão. Quando digo ou escrevo uma frase, a
qual cabe por inteiro nestas linhas, aquilo que ficou dito já não é mais
presente, ficou no passado. Vou até mais longe, quando escrevo uma palavra,
homem, por exemplo, tem ela duas sílabas: “ho” e “mem”. Ora, depois de escrever
“ho”, quando grafo “mem” o “ho” já ficou no passado. Concluo: uma simples palavra
dissílaba não se encontra inteira no presente. A própria sílaba de duas letras
não existe inteira no tempo presente, pois ao escrever a segunda letra a
primeira já estará no passado.
Se não
temos o presente, dado que ele não existe, o que dizer então do futuro, que
ainda nem chegou? Também ele não existe. Talvez venha a existir, não há
garantia. O que nos resta, então, pobres mortais que somos? O passado! dirá o
leitor diligente. Estará ele certo? Sim e não; há controvérsia. Não nos
deixemos, contudo, cair neste buraco escorregadio da controvérsia. Aceitemos,
eu e o leitor de juízo, que sim, que o passado existe; se não, nada existirá.
Ora veja, se já provamos que não existe o presente, concordamos que o futuro
ainda não é, e o passado já ficou para trás, então nada sobra e, por lógica,
teremos que parar estas linhas, que também serão apenas ilusão. Estes paradoxos
só existem em cabeças que pensam demais. Façamos como o velho Sócrates, que,
ante o paradoxo de Aquiles e a tartaruga – que pretendia provar que não existe
o movimento – para demonstrar o contrário simplesmente andou.
Sejamos
igualmente práticos e concordemos: o presente é fugaz, apenas um átimo, o
futuro é uma invenção e apenas o passado é concreto.
Epa! Digo
agora, devagar com o andor! Desajustado sou, mas não fujo da lógica. Pois não
disse pouco antes “sim e não, há controvérsia”? E, no entanto, malandramente,
vou fugindo do assunto? Não, sou honesto, voltemos à questão. Ainda no
parágrafo anterior disse eu que “o presente é fugaz, apenas um átimo”. Se é
fugaz, existe; típico raciocínio cartesiano. Tenha o átimo a duração de um
segundo ou um milésimo, o certo é que ele existe, o que derruba a conclusão
anterior de que só o passado existe. O presente também existe e, se formos
levar a ferro e fogo, talvez cheguemos à conclusão de que o passado é que não
existe e que nós outros, pobres viventes, vivemos sempre em um eterno presente,
composto da sequência ininterrupta de milionésimos de segundos.
Para não
ficarmos chafurdados nesta lodosa poça da gnosiologia temporal, concordemos,
afinal, que passado e presente existem e só o futuro não existe
Já revelei
que tenho sonhado com o passado e confessei também que venho escorregando na
rampa do exagero. É que sonhei estar vivendo no ano de 1881, na cidade do Rio
de Janeiro, onde fui encontrar Machado de Assis pouco depois da publicação de
Memórias Póstumas de Brás Cubas. Cheguei até a lhe dar umas dicas para a
criação da futura Capitu. E o exagero não parou por aí, não, continuou se
exacerbando. Não bastasse sonhar com um passado irreal, passei a sonhar com um
futuro sombrio. Tenho sonhado no último mês com figuras terríveis, creio que
por causa de um amigo gozador, desses que todos temos, que trocam a vida por
uma piada e gostam de ver o circo pegar fogo. A culpa, propriamente, é mais
minha do que dele; sou muito influenciável. Pois não foi dele, também, que
partiu a sugestão de que eu procurasse um psiquiatra para consertar a cabeça?
Pode até ter sido uma brincadeira, mas, como sou terreno fértil para plantação
de dúvidas, segui o conselho: consultei um medalhão. Para parecer o Freud só
faltou ao homem o charuto e o cavanhaque, cabelo grisalho e óculos de míope ele
já tinha. Deitou-me num divã e começou a fazer um monte de perguntas sobre
minha mãe. Falei que ela estava morta e que quase não lembrava mais dela. Ele
escreveu uma dúzia de linhas em um bloco de papel. Depois perguntou de meu pai;
respondi que foi o modelo de minha vida, que me ensinou a profissão e os
perigos da vida, que me contava histórias para dormir e me dava presentes no
Natal e no aniversário. Ele não escreveu nada. A partir daí comecei a
desconfiar do homem. Depois ele projetou na parede uns borrões de tinta e
perguntou o que eu via; disse que via borrões, mas ele não gostou e insistiu.
Continuei a ver só borrões. Ele trocou a primeira projeção por outras e pedia
para eu ver outras coisas, mas eu só via borrões. Aí ele desistiu. Escreveu o
nome de um colega em uma folha do tal bloco e me disse que meu caso era muito
sério e que devia consultar aquele especialista. Como sou educado, peguei o
papel, dobrei-o com cuidado, coloquei-o no bolso e agradeci. Na rua, amassei o
papel até virar uma bolinha, e joguei-o na caixa de lixo da esquina; ele
embocou sem bater no aro e vibrei como se fosse uma cesta de três pontos.
Além
daquela sugestão infeliz, o mesmo amigo da onça é o culpado do que andei
sonhando neste mês. Como já falei, foi dele a ideia de sonhar com o futuro. Eu
disse que o futuro não existe, mas ele falou: invente! Foi daí que comecei a
inventar dormindo.
Na primeira
semana inventei, isto é, sonhei com um tal de Bossalnato, um tenentezinho que
foi expulso do exército por indisciplina, associou-se às milícias cariocas e
entrou para a política, defendendo teses reacionárias e negativistas. Diz que a
Terra é plana e que pobre, em vez de feijão, devia comprar fuzil. Acabou se
dando bem e hoje mora em mansão na beira do Lago Sul.
Na semana
seguinte sonhei com um americano de nome Duck Yellow Toopet. Era um homenzarrão
meio gorducho, branco coalhada, mal-encarado, raivoso, outro que jurava que a
Terra é plana, que a raça branca é superior e, com essas ideias retrógradas,
acabou sendo presidente de um país rico de dinheiro e pobre de espírito.
Na terceira
semana sonhei com um brasileiro que se chamava, se não estou enganado, Orlando
Furioso. Misto de astrólogo e jararaca, mudou-se para o Estado da Virgínia, lá
nos U.S.A, e fundou uma fabriqueta de produção de peçonha, donde destila veneno
para os incautos do mundo todo. Também ficou rico.
Finalmente,
na semana passada, dei de sonhar com um pastor evangélico de nome Edir Metemedo.
Não sei se o nome era bem esse, mas cabe bem no cara. Este fundou uma igreja
cuja única finalidade é roubar o pouco dinheirinho dos paupérrimos. Como por
aqui eles são muitíssimos, o gajo logo ficou podre de rico e foi morar em
Miami.
Tendo
ficado desanimado com essa bateria de sonhos, fui me queixar ao amigo. Ele
disse: E não foi bom? E eu: Foi péssimo! Aí ele explicou que, se estou na
pindaíba, no chamado bico do corvo, a culpa é toda e só minha. Pois os sonhos
não sugerem quatro caminhos para que eu me dê bem na vida? — É só seguir um
deles e você vai ser um sucesso, ele vaticinou rindo.
Desde então
não tenho mais sonhado. Na verdade, não tenho nem dormido. Como sou
influenciável, fico matutando se sigo ou não um dos quatro caminhos. Fico
indeciso. Sei não...
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