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Mostrando postagens de novembro, 2013

A ÚLTIMA CONQUISTA

            O trem para, abre as portas e o homem entra, mas não se dá o trabalho de procurar lugar para sentar. Não há. De pé, empalma a guia de segurança e recebe, com alívio, o choque térmico do metal frio; pior se estivesse quente de outras mãos, pior ainda se úmido do suor delas. Lembra-se, divertido, do sonho de Dolores, que queria a ternura de mãos se encontrando para enfeitar a noite de seu bem. Ele as tem em aversão; prefere até, ao aperto de mãos, o cumprimento de cabeça, que pode vir acompanhado de ligeira inclinação, à maneira japonesa, quando pompa e circunstância o aconselhar. Mas sempre há quem insista em tomar-lhe da mão arredia e nela depositar humores; por isso cultiva o hábito de passar pela pia quando a casa torna. Ainda se fossem mãos de amada... Que raras são, pois na vida real, fora de romances e cinema, são pouquíssimos os amantes, ou por ser mesmo raro o amor ou por ter ele duração efêmera.  ...

DE MAMAS E MAMILOS

  (Com intervenção indignada do Amigo Leitor)                      A história que vou escrever é verdadeira, embora tenha alguma tinta de conto de fadas. Se parecer irreal, o defeito é meu, não da história.             Oriundo da velha bota, Matteo Massari emigrou ainda menino, com os pais, e julga-se tão brasileiro como eu e você. Nada mais justo: gosta de praia, futebol e mulher, como qualquer de nós, mas tem lá seu fetiche por peitos e aí a gente desconfia de algum gene norteamericano transviado. A seu favor, porém, ao contrário dos novos saxões, não os aprecia volumosos e sim bem formados, com linhas de protuberância suave a desenhar atrevidas curvas catenárias, que parecem desafiar as leis da gravidade, embora delas sejam produto. Gosta também, o homem, de mamilos salientes, ligeiramente escurecidos em relação à...

A PESCARIA

                      Fora mulher, não diria para não trair idade, mas sendo homem e escravo da verdade, não posso me furtar à confissão de que o caso se deu na década de 60. No entanto, para que não tenham de mim, falsamente, a imagem de um velho caquético, é de justiça esclarecer que era eu, à época, muito jovem, casadinho de novo e ainda preocupado em agradar a patroinha. Assim, quedava-me todo ouvidos para as histórias de pescaria do meu sogro, um alemão sacudido. O interesse fingido não tardou a despertar na teutônica cabeça a ideia de me obsequiar com um convite para tão excelsas aventuras. Sabido ser impossível brotar na cachola de um pescador a suspeita de que alguma criatura possa dela não gostar, foram impotentes os subterfúgios que tentei usar para fugir da pescaria, que foi peremptoriamente marcada para o domingo seguinte.       ...

PEGADAS

É tardinha. O Sol, perto do horizonte, tinge-se de vermelho, talvez ruborizado de vergonha de se deitar tão cedo. Sonolento, distraído, nem se dá conta de que deixa escapar raios enfraquecidos que nem aquentam mais. E no entanto, há poucas horas, dardejava espadas flamejantes que queimavam terra e mar e faziam evaporar águas, povoando de nuvens brancas o céu desabitado de deuses. Agora seus raios são oblíquos e tudo pintam com luz fantasmagórica, desenhando longas sombras pelo chão. Os seres, animados ou não, parecem se transfigurar e, inconscientes, transformam a realidade do mundo em um mundo novo. Neste novo mundo ando eu por esta praia, e meus pés vão pisando a areia úmida e nela deixando marcas. Não fosse oblíqua a luz do Sol, talvez nem percebidas seriam elas, mas, com a inclinação dos raios, fácil é se notar o contorno dos meus pés descalços, a pressão plantar, o desenho dos dedos. São pegadas frescas, que vêm se juntar a outras mais antigas, de pés que por aqui pa...

CAMISETA DESBOTADA

Caminho sob as sombras do arvoredo do Piqueri, com a camiseta da Ilha do Mel, velha companheira azul desbotada que não consegue mais disfarçar os puídos de excesso de uso, tão igual a mim. Amigos comentam, por que não troca, mal sabem eles a razão escondida, mais que isso, a desrazão; soubessem, zombariam. Não saberão. Não por mim, ao menos não pela boca, que controlo, mas e os olhos? Esses olhos ensandecidos podem ser traiçoeiros; vivo em febre e o calor pode por eles transbordar. Olhos não têm porta ou torneira que os feche, quanta vez se debulham em lágrimas na contramão da vontade do dono. É de sua natureza a traição. Mas por que me preocupo tanto? Que me traiam! Que revelem ao mundo este amor outonal, merecedor de castigo, contrário que é à normalidade humana. Somente à juventude é permitido o amor e que aproveitem bem dele os jovens, mas que se acautelem: ao virar a esquina o peso dos anos lhes cairá às costas. É justo que lhes seja interdito levar estes amores até o próximo ...