O trem para, abre as portas e o homem entra, mas não se dá o trabalho de procurar lugar para sentar. Não há. De pé, empalma a guia de segurança e recebe, com alívio, o choque térmico do metal frio; pior se estivesse quente de outras mãos, pior ainda se úmido do suor delas. Lembra-se, divertido, do sonho de Dolores, que queria a ternura de mãos se encontrando para enfeitar a noite de seu bem. Ele as tem em aversão; prefere até, ao aperto de mãos, o cumprimento de cabeça, que pode vir acompanhado de ligeira inclinação, à maneira japonesa, quando pompa e circunstância o aconselhar. Mas sempre há quem insista em tomar-lhe da mão arredia e nela depositar humores; por isso cultiva o hábito de passar pela pia quando a casa torna. Ainda se fossem mãos de amada... Que raras são, pois na vida real, fora de romances e cinema, são pouquíssimos os amantes, ou por ser mesmo raro o amor ou por ter ele duração efêmera. ...