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Mostrando postagens de junho, 2011

E AGORA, JOSÉ?

           Mas que falta de consideração! Aqui estou eu deitado de bunda para cima, todo pelado, esperando não sei o quê. Cadê os direitos humanos de que tanto se fala? Afinal, defunto também não é gente? Se pudesse, berrava, queria falar com o Diretor, fazia um fuzuê. Mas o diabo é que não posso me mexer; nem abrir o olho, sô! Que mancada... Aquele filho de uma égua! Tinha que me dar aquela fechada, o cachorro? E agora está lá, numa boa. Fugiu, ninguém sabe, ninguém viu. E eu aqui. Presunto fresco. Bem que a mãe dizia, põe o capacete de proteção. Mas não, eu tinha que me mostrar para as gatinhas, exibir os cabelos soltos, agitados do vento. Agora, ó para você! Coitada da velha! Como berrava, quando me viu. Quase que desmaia. E o coroa, então? Que tristeza nos olhos! Chegou a perder aquela cara de boi sonso, que sempre teve. Na Marlene deu um chilique. Aquela vaquinha... Já estava me botando chifre com o Oscar, e fez aquela onda toda. E agor...

O HOMEM QUE TINHA MEDO DA MORTE

            O nome dele era Cláudio Públio Tarquínio. Pater-familiae romano, vivia em Neapólis, a bela cidade grega engastada à beira de uma baía de águas azuis, a meio caminho da Sicília. Instalado com conforto, cuidava dos negócios da família patrícia, cuja linhagem era arrogantemente estendida até Rômulo, não por ele, que não dava importância a isso, mas pelos parentes, orgulhosos da nobre estirpe. Talvez por não participar da arrogância familiar, ou quem sabe por causa de incompreensível inapetência política, fora relegado à atividade comercial, indigna de um romano tão distinguido, mas que combinava com seu temperamento apático, constantemente desviado dos assuntos importantes da república, sendo a culpa atribuída, com ou sem razão, ao preceptor grego que lhe enchera a cabeça jovem de caraminholas filosóficas. Conquanto incapaz para atividades nobres, era bem formado moralmente, o que bastou para granjear-lhe o respeito dos gr...

SÃO PAULO - 450 ANOS

NARRATIVA DE VISITAÇÃO (Produzida por Padre Anchieta)             Ao muito reverendo em Cristo Padre, o Padre Manoel da Nóbrega.             Laudate Dominum!             Com o favor divino, darei conta da viagem e missão com que houve por bem Vossa Reverendíssima honrar este humilde servo. Conquanto adrede prevenido pelo guia que me coube, o bacharel Lobato, cumpre-me confessar que sucumbi de início à grandiosidade das visões da nova Piratininga, neste momento em que completa seu quarto aniversário, no início do terceiro milênio da Era do Salvador, perfazendo 450 de fundação. O próprio acadêmico Lobato, qual um redivivo Virgílio a conduzir um novo e inepto Dante, tem se mostrado quase tão perturbado como eu, embora só esteja afastado do mundo material há exíguos anos, não mais que meio século. Não fosse Vossa Reverência aco...