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Mostrando postagens de outubro, 2018

O ENGENHOSO FIDALGO E SEU ESCUDEIRO

            — Triste o país que precisa de heróis! – exclamou o homem sábio, e se pôs a divagar sobre isso. O homem do povo o escutava com atenção, não é sempre que tinha uma oportunidade como essa. De poucas letras – mal-e-mal havia sido desasnado pela professorinha – pouco mais da metade entendia do que o homem falava, mesmo assim já era muito, acostumado que estava a só ouvir o cacarejar das galinhas e, vez por outra, o zurrar lastimoso da mula Zenaide. E o homem falava; contava que um povo feliz não precisa de heróis, que barriga cheia e saúde boa são suficientes para garantir uma noite de sono. Só precisa de heróis o povo que não dorme bem e, assim mesmo, um domingo na igreja muitas vezes resolve o caso dos insones. A absolvição do pecado costuma trazer de volta a paz perdida.             Contudo, se a fome se instala na cozinha e o frio espreita pela janela, aí si...

MEDO DE ÁGUA FRIA

            O velho olhou-se no espelho e não se assustou, acostumado de ver aquela decadência toda manhã. Quando se chega aos oitenta qualquer viço de juventude foge para detrás das orelhas, é inútil procurar em qualquer sítio do rosto, o que se vê é o nariz dia a dia maior e as orelhas crescendo como velas a sotavento. Por que tem de ser cruel a natureza, por que produz essas deformações, não bastaria a rede de sulcos na pele e os tufos de pelos a sair de narinas e ouvidos? Não seria isso suficiente para afirmar: - Eis aqui um velho, ECCE HOMO! Mas não, eis que as orelhas viram abano e o nariz, uma batata. E para onde foram os cabelos, cadê o topete negro de brilhantina a moda Elvis, quando foi que se perdeu? A memória fraca de muitos anos já não lembra mais, agora o que se vê é uma testa sem fim, leitosa e pintalgada como o couro de um dálmata; o que antes fora uma floresta negra hoje não passa de uma caatinga crestada. O ho...