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A CANETA

Ou Lobo em Perigo / Ou Xuxu quase frito / Ou  Canto em Falsete / Ou Um Casal Feliz

            Ele chegara finalmente àquela idade que, não sei por que, dizem ser a idade do lobo, que é quando o homem macho está sempre de prontidão para caçar qualquer fêmea incauta que lhe cruze o caminho. Note-se o uso da expressão redundante homem macho. Antes que me critiquem, declaro que não foi por descuido, não, foi de propósito que a empreguei. Na modernidade dos dias de hoje a palavra homem, por si só, não carrega mais, como antigamente, o sentido original de gênero, em oposição ao que feminino é. Trans-sexualidades várias embaralham como nunca a diferenciação de sexos, não sendo mais possível uma descrição precisa de homem ou mulher sem a presença esclarecedora de um adjetivo definidor. Assim sendo, fica assentado de princípio que o nosso homem, o herói desta historieta, é um homem macho.
            Sempre fora, aliás, chegado a conquistas, mas, como bom mineiro que é, com muita discrição. Agora, com a chegada dos quarenta, o desejo se exacerbara e ele, que nunca deixara de ser contido, por vezes se tornava audacioso, chegando a correr riscos que em outros tempos não se permitiria. A razão disto talvez resida no que a sabedoria popular, que nem sempre é tão sábia assim, costuma chamar de o último canto do cisne, quem sabe inspirada no balé de Tchaikowski. Ao pressentir que sua força vital começa a se esvair, o indivíduo entrado em anos assume posturas frenéticas, tentando provar para si e para o mundo sua funcionalidade perfeita. Diria até atemporal, eterna, inoxidável, não fosse o receio do abuso estilístico da adjetivação abundante. Melhor que idade do lobo, talvez fosse chamar esta fase masculina de idade do cisne. Mais apropriado.
            Os riscos que podiam ameaçar nosso herói, além das afecções venéreas de praxe, eram no caso presente a possibilidade de Marilda vir a descobrir as aventuras do consorte, que daí então passaria a ser irônica e indubitavelmente sem sorte. Claro está que esquecia-me dizer que era ele casado com a supra dita Marilda, bem casado, com filhos criados, casa própria, carro novo na garagem e dinheiro no banco. Profissionalmente realizado, advogado de conceito, — segundo maledicentes desafetos, com alguma ajuda do sogro, desembargador de prestígio — soubera ele conservar o doméstico carinho dos primeiros tempos de casado e ainda chamava a esposa de “querilda”, numa brincadeira de crase de tratamento e nome. Ela, com mais simplicidade, chamava o marido apenas de xuxu, assim mesmo, com dois xis, em desacordo com a ortografia da leguminosa. Sei disto porque vi, certa feita, um cartão de Natal que ela lhe entregara, capeando-lhe o presente. O cabotino me o mostrou, só para se vangloriar de quanto é amado.
            Pois não é que o bandido, indo certa manhã para o escritório, vislumbrou pela visão periférica um brilho no chão do carro? Quando pode, olhou melhor e distinguiu o que o canto dos olhos apenas pressentira. Era uma caneta. Parou o carro em local seguro e tomou a caneta nas mãos. Fina, delicada, tinha coladas em seu corpo pequenas pedras brilhantes que formavam o desenho de um ramo de flor. Não havia dúvida, era uma caneta de mulher.
            Um frio percorreu-lhe a espinha. Lembrou-se da noite anterior, da desculpa inventada da reunião com clientes, das duas horas de motel, da Neide remexendo na bolsa para achar o RG e exibi-lo ao atendente. Tão viçosa e fresca que o homem desconfiara ser ela “de menor”, “Desculpa, doutor!” A cara de prazer da Neide. “Viu? O homem pensou que eu era uma menina!” Na certa a descuidada deixara, na ocasião, cair a caneta no tapete do carro, sem que nenhum dos dois percebesse. E pensar o que podia ter acontecido se Marilda visse a caneta! Só de pensar, suas mãos tremiam. Sorte que ele é que vira. Precisava tomar mais cuidado. Passar um pente fino no carro, depois das escapadas. Ainda bem. Tinha que agradecer a Deus. Mas não seria um desrespeito agradecer a Deus? Poderia Deus estar protegendo um pecador como ele? Pelo sim, pelo não, persignou-se e beijou o polegar. O gesto saiu mal feito por falta de prática. A que tempo não o fazia!
            Acalmou-se e viu que tinha que se livrar da caneta. Que pena, tão graciosa! Jogou-a longe, no gramado da praça. Esperou mais uns minutos para se acalmar de todo, religou o carro e tocou para o escritório.
            Dois dias depois foi com Marilda ao supermercado. Comprou de um tudo. Até um vinhozinho macio, para festejar. Festejar o que, ela perguntou. “A vida! A nossa vida!” Estava feliz. “Somos um casal feliz!”
            Retornando a casa, ela comenta:
            — Xuxu, você por acaso não achou no carro uma caneta? Acho que perdi a minha. Tinha acabado de comprar. Faz dias que procuro e não acho.
           

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