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Mostrando postagens de 2018

O ENGENHOSO FIDALGO E SEU ESCUDEIRO

            — Triste o país que precisa de heróis! – exclamou o homem sábio, e se pôs a divagar sobre isso. O homem do povo o escutava com atenção, não é sempre que tinha uma oportunidade como essa. De poucas letras – mal-e-mal havia sido desasnado pela professorinha – pouco mais da metade entendia do que o homem falava, mesmo assim já era muito, acostumado que estava a só ouvir o cacarejar das galinhas e, vez por outra, o zurrar lastimoso da mula Zenaide. E o homem falava; contava que um povo feliz não precisa de heróis, que barriga cheia e saúde boa são suficientes para garantir uma noite de sono. Só precisa de heróis o povo que não dorme bem e, assim mesmo, um domingo na igreja muitas vezes resolve o caso dos insones. A absolvição do pecado costuma trazer de volta a paz perdida.             Contudo, se a fome se instala na cozinha e o frio espreita pela janela, aí si...

MEDO DE ÁGUA FRIA

            O velho olhou-se no espelho e não se assustou, acostumado de ver aquela decadência toda manhã. Quando se chega aos oitenta qualquer viço de juventude foge para detrás das orelhas, é inútil procurar em qualquer sítio do rosto, o que se vê é o nariz dia a dia maior e as orelhas crescendo como velas a sotavento. Por que tem de ser cruel a natureza, por que produz essas deformações, não bastaria a rede de sulcos na pele e os tufos de pelos a sair de narinas e ouvidos? Não seria isso suficiente para afirmar: - Eis aqui um velho, ECCE HOMO! Mas não, eis que as orelhas viram abano e o nariz, uma batata. E para onde foram os cabelos, cadê o topete negro de brilhantina a moda Elvis, quando foi que se perdeu? A memória fraca de muitos anos já não lembra mais, agora o que se vê é uma testa sem fim, leitosa e pintalgada como o couro de um dálmata; o que antes fora uma floresta negra hoje não passa de uma caatinga crestada. O ho...

O ESPELHO DO BRUXO

            Há controvérsias! Uns dizem que Machado de Assis inventou a história de seu conto O Espelho, outros afirmam que ele a recebeu de um informante. Sei eu, de fonte segura, que existiu não só o primeiro, mas também um segundo informante, que lhe trouxe um relato um tanto diferente, mas que, por ser menos fantástico, não recebeu aprovação do Bruxo do Cosme Velho. Não quero pôr em dúvida o acerto da escolha do venerando mestre, contudo, julgo eu, uma justa curiosidade deve surgir no leitor que do caso tome conhecimento. Por isso me proponho a trazer à luz essa história.             A segunda versão não chega a invalidar a tese das duas almas, mas contribui para enfraquecê-la, de vez que não comprova a existência da alma exterior. Não invalida, mas cria a dúvida. Se o leitor se recorda, no conto de Machado o personagem Jacobina afirma a três amigos a existência de ...

CACHINHOS DOURADOS

            Todo exemplar da espécie humana tem marcadores que o definem e que servem para torná-lo único: um indivíduo! Que é diferente de todos os outros, irremediavelmente distinto, ostentando o galardão de que a Natureza todo-poderosa, ainda que para isso gaste a eternidade inteira, ainda assim, não conseguirá produzir outro igual. Somos únicos. E cada um de nós é, em si mesmo, um universo de fatos e emoções que só pode ser vivenciado por si próprio. Que desperdício, quanta riqueza teríamos se pudéssemos usufruir do tesouro de cada um!             Registro abaixo dois fatos de meu universo pessoal que ajudam a definir o homem que sou: a aposentadoria e a segunda Faculdade. Faço-o por dois motivos, por não querer guardá-los egoisticamente só para mim e para facilitar a vida de um possível futuro biógrafo (Com Conan Doyle aprendi que o mais improvável costuma acontece...

ESTRELAS NA ÁGUA ESCURA

            Nestes tempos bicudos em que o bicho homem faz todo esforço para aniquilar a vida do planeta, e quando alguns de nós erguemos trincheiras para defendê-la, que tal, leitora amiga, fugirmos um instante e esquecer nossas mazelas? Não, não é covardia, até as guerras têm momentos de armistício, é quando se renovam forças para novas batalhas. Ao dia árduo de refregas sucede a noite benfazeja; mansa, vem ela lamber as feridas do guerreiro. Façamos nós uma breve escapada, que não envolve planejamentos logísticos, apenas uma viagem em pensamento. Não te roubará precioso tempo, somente poucos minutos. Relaxa, respira e deixa fluir a imaginação. Vem comigo nesta fantasia!             Olha lá em baixo, é o rio Paraguai. A água corre mansa dentro da noite, parece gemer baixinho, não de lamento, mas de preguiça. A superfície lisa esconde o movimento que lhe escorre por ba...

UM CASAL ARIANO

            Era sua primeira viagem de navio; João e Maria, aposentados, podiam se dar ao desfrute, nada nem ninguém os exigia em casa. Haviam reunido alguma economia e podiam gastá-la na travessia do Atlântico. Foram para a Europa de avião e voltariam cruzando o oceano. Visitaram Roma, Florença, Veneza e Milão e chegaram a Gênova, onde começaria a verdadeira aventura, o cruzeiro marítimo.             Dentro do navio, na segunda noite de navegação, durante um coquetel de boas-vindas patrocinado pelo capitão, viram pela primeira vez o casal ariano. Ele, espigado e hercúleo, cabelo loiro cortado à escovinha, mantinha-se quase imóvel e, quando se mexia, era de modo comedido, ora bebericando, ora depositando na mesinha à sua frente o pequeno copo de uma bebida certamente forte. Os olhos claros, de reflexos metálicos, moviam-se continuamente como se estivessem mantendo o amb...