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Mostrando postagens de fevereiro, 2014

AMSTERDAM

            George ia entrando nos sessenta anos quando perdeu a mulher, levada pela doença que, ironicamente, tinha o mesmo nome do signo em que ela nascera, e que não repito para não atrair azar. Companheira havia mais de trinta anos, Mary, o nome dela, era recatada e submissa. Não tiveram filhos, por isso George era agora um homem só. Mesmo que os tivesse, ainda assim estaria só, pois filhos o mundo leva e os transforma em cartões postais e uma ou outra visita de Natal.             Anglicano convicto, como todo bom súdito da rainha, continuou a frequentar a igreja, como sempre havia feito com Mary. De início não sentiu muito a falta da companheira, mas a solidão aos poucos foi lhe pesando na alma e a falta foi se impondo sorrateira. Não tardou muito para ele reconhecer que tinha de fato amado a mulher e arrependeu-se de não o ter dito a ela nos últimos tantos anos. S...

RACONTO NAPOLITANO

       Bella Napoli! Vetusta e bela, deitada à beira desta baía de águas esmeraldinas, és tu o cenário desta história triste que vou contar. Se fosse um filme, fecharia a câmera para uma das ruelas de seu centro antigo, com os varais de roupa a atravessar o céu, ligando as janelas dos sobrados fronteiriços, trapos coloridos a lembrar o estranho festival de Orestes Barbosa. Aproximando mais a câmera, furaria as roupas dependuradas e captaria a imagem rodopiante de dois meninos a brincar. São eles Luigi e Luca. É deles a história.        Nasceram no mesmo ano, cresceram no mesmo cortiço, à sombra da lei da Camorra. Sem intenção de proselitismo, é sabido que mesmo os criminosos têm lá seu código de honra, e ai de quem o desrespeite. Pois sob o código crescerão estas crianças e nelas estarão impregnados seus valores.        Cenas de páginas de calendário se despregando, primeiro em ritmo ...

MEDITABUNDO

            Meditabundo, cabisbaixo, cismarento, o homem, claudicante e lento, sentou-se no banco da praça, Trazia a roupa em desalinho e o cabelo revolto, nos olhos, uma mágoa. Sofria. Seria por ingratidão de filho, pela perda da mulher amada? Os olhos, secos de tanto chorar, desfocavam o mundo e, estranhamente, pareciam mirar no sentido inverso, para dentro do próprio crânio, na tentativa, talvez, de surpreender a alma, escondida no emaranhado dos neurônios.             Assim ficou. Por que tempo? Tão indefinível o tempo! Um instante? Toda a eternidade? Difícil dizer. Ficou o preciso, o tempo necessário.             Voltando do mergulho interior, os olhos focaram outra vez o mundo, no que ele tinha de mais próximo, a praça, o parque da praça. De início sem forma, como olhos de um recém nascido, focavam apenas...