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OLHOS NOS OLHOS

            O homem acendeu a luz e entrou no quarto. Pressentiu um movimento no chão e olhou: a barata estacou na hora e ficou a olhar para ele, olhos nos olhos. Não distinguia os olhos dela, por míope que era, mas sentia que o fitavam, assim como sabia também que não olhavam para qualquer parte do seu corpo mas sim para os seus olhos. Era o mesmo comportamento de todos os bichos que conhecia, todos também o olhavam direto nos olhos, fosse o cão Frederico ou a gata Heloísa — e até o Nardinho, o peixe dourado. Por que sempre o olhavam nos olhos? Tinha ele um metro e oitenta de altura e oitenta quilos, por que não olhavam os bichos para sua barriga, para a mão, para o joelho? Não! De todas as partes do seu corpo, vasto e disponível, escolhiam sempre aqueles dois pontinhos — os olhos; minúsculos se comparados à protuberância abdominal, à manzorra cabeluda ou ao joelho ossudo. Mas a todos esses alvos sobrepunha-se a estranha preferência. Era como se adivinhassem os animais que aqueles pontos brilhantes eram a passagem que o ligavam ao mundo, o caminho por onde a consciência espreitava. Mas não sempre, não quaisquer olhos, em qualquer condição; só quando tinham um lampejo especial. Se estivessem distraídos, absortos no infinito, era como se mortos fossem. Para possuir a faísca da consciência tinham de estar focados e como que embebidos na purpurina de um fluido vital misterioso. Mais que ver, tinham de enxergar, e transmitir a sensação de estar dizendo:
            — Sabe que estou aqui e que sei que aí estás! Toma tento, pois, com aquilo que fazes.
            A barata, imóvel, parecia entender como ameaça o discurso dos seus olhos. Movia apenas as antenas, nervosamente, como se assustada estivesse, ou só, quem sabe, para demonstrar seu intento pacífico.
            — Vê, estou parada, sou inofensiva! Segue teu caminho, eu sigo o meu.
            Mas, se isso falava, não o fazia de modo convincente, pois continuava paralisada. Podia-se sentir o medo que dela emanava como se fosse uma vibração física no ar.
            Fosse o homem um cientista, talvez pudesse fazer uma tese e mostrar que mecanismos insondáveis escondiam-se nas sinapses cerebrais daquela barata; se filósofo, explicar os fundamentos gnoseológicos que sustentavam tão insólito comportamento, quem sabe até levantar paralelos metafísicos que aproximassem na esfera ontológica dois seres tão díspares, o homem — topo da escala evolutiva — e o inseto ínfimo. Mas não era nada disso, era apenas um homem comum, sem letras; e por isso se recriminou. Se Lobato lera, esquecera; se não, lembraria que não é mais sábio o homem que aponta o dedo para o céu e diz: — Betelgeuse! — que aquele que diz simplesmente: — Estrela!
            Enquanto assim pensava, teve um momento de distração, que foi percebido pela barata: ela se moveu. Seria talvez um movimento de fuga, que foi porém prontamente impedido pela agudez do seu olhar, que instintivamente retomara o foco e a atenção. Ficaram outra vez a olhar um para o outro, imóveis, e era como se dos olhos apenas pressentidos do inseto subisse a admoestação:
— Mas o que fazes? Quem pensa que és, o rei da criação? Ora, deixa-me em paz!
O homem não agüentou a recriminação e, envergonhado, desviou o olhar. Pelo canto dos olhos percebeu que a barata corria até a parede e enfiava-se pelo rodapé. Tornou a cabeça para confirmar e com alívio certificou-se de que o chão estava vazio.
*  *  *
Na manhã seguinte o homem acordou de mau humor. O céu parecia combinar, estava cinzento, carregado de nuvens baixas, prenhes de aguaceiro.
Chamou Joana:
— Precisa jogar inseticida no quarto! Tinha uma barata esta noite...
 

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