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Mostrando postagens de 2012

RIO

            Rio! Rio de Heráclito, mutante e mutável, de imperturbada mutabilidade, constantemente em transformação, de minuto a minuto vindo a ser aquilo que antes não era. Com os minutos passam tuas águas e já não são mais agora o que foram no minuto anterior. És um outro rio e em ti não se pode banhar um mortal mais que uma vez, pois na segunda vez outro rio será. E ainda que, por absurdo, pudesses ser tu o mesmo rio, não seria mais ele o mesmo mortal a se banhar em ti; ele próprio teria se transformado, com a morte e substituição de células, atestando a verdade insofismável de sua definição – um simples mortal.             Rio comprido, multifacetado, muitos rios em um só, que nasces do degelo da cordilheira, nas alturas rarefeitas – tímido corregozinho transparente – e encorpas ao te juntares a outras vertentes, e desces alucinado pelas escarpas rochosas, aonde tuas águas em corredeira vão...

MEDUSA

            Tudo começou quando a fiandeira dos destinos deu a primeira puxada no fio de minha vida e fez minha mãe, uma negra valente, se engraçar por um cabra loiro de olhos verdes. No Recife este tipo de homem não é tão raro, é o que sobrou dos invasores de Holanda. Não é raro, também, que, valendo-se do poder de sedução dos olhos verdoengos, deitem-se eles com as raparigas desavisadas e vão nelas fazendo meninos; depois ganham o mundo, desaparecendo como o gênio da lâmpada. Foi o que aconteceu com minha mãe, mal saída das brincadeiras de boneca, a carregar outra boneca na barriga.              Nasci bem, forte. Forte e pobre, fui crescendo na vicissitude da pobreza mas no carinho da mãe amante. Batalhadora, conseguiu ela me botar na escola, e lá, enquanto, por um lado, aprendia contos e contas, por outro, aprendia o peso de ser pobre, negra e mulher, três desgraças que o João do Apocalipse esqueceu de enumerar. Maus...

AZUL, VERMELHO E BRANCO

                    Senhora Dona, Dona do ar que respiro, da luz que me alumia, dona do sangue que me corre e ainda ferve nas artérias cansadas, dona dos meus instantes de alucinação e delírio, dona do meu presente, senhora do meu destino, venho a ti na qualidade de cativo. Do azul dos teus olhos fiquei cativo, desde a primeira vez que os mirei. Há quem julgue impossível uma paixão instantânea, coisa de poetas parnasianos. Eu mesmo assim o fazia. Até ver o azul profundo dos teus olhos, aquele azul que me arrebatou, que me arrancou do solo firme em que havia lançado minhas raízes céticas, como se fora eu uma erva daninha, que me solapou os alicerces da mediocridade e me lançou no vórtice tresloucado da insanidade do país de Eros. Bendita insanidade! Doença que dói, mas da qual não se quer sarar, aguilhão que ferreteia a alma, que a dilacera em mil pedaços e, ainda assim, cada um desses pedaços mil vezes prefere o martírio da dor que a...

O HOMEM NO QUARTO ESCURO

            Sei que perguntarás: que fazes neste quarto escuro? Ouço estrelas! Ora, direis, e por que não abres a janela? Por que não olhas para o céu? Pois lá elas estão. E responderei: lá estão, é verdade, mas estão também aqui, bem aqui, dentro de mim. Que sou eu senão estrelas? Dissolve-me em meus elementos e põe-nos em uma balança, cada qual com os de sua natureza. O que encontrarás?  Montinhos de ferro, cálcio, magnésio, fósforo, carbono... E como sobra, um balde d’água. De onde foi a mãe natura buscá-los? Colheu-os de poeira de estrelas, de restos de explosões de supernovas. Meu sangue carrega pelas artérias os átomos que um dia pulsavam no coração delas. Que idade terão eles? São velhos, muito velhos. Mas, mais antiga é a matéria de que são formados, os prótons, os nêutrons, os elétrons... Remontam à origem das origens, ao tempo em que não havia tempo, ao “fiat lux” do estouro inicial.         ...

BICHO HOMEM

                 No começo eram as trevas e a luz se fez. Nasceram os astros e as estrelas e o céu se coalhou de bilhões de girândolas, a rodopiar em busca do infinito. Em um daqueles braços espiralados, banhado do suave calor de uma estrela amarela, forma-se um mundico que irá abrigar um ser minúsculo. Mas — oh, ironia soberba! — esse cascalho de vida irá autoproclamar-se o rei da criação. De início hirsuto e arbóreo, perde os pelos e a cauda e finca pé no solo. E a cada pelo caído e passo conquistado, cresce-lhe no coração a presunção. Irá mirar-se no espelho do lago e dirá:             — Oh, que belo sou! Só posso ter sido criado por um Deus que comigo se parece!             De noite, ao olhar para o luzeiro interminável de estrelas a faiscar:             — Oh, que lind...

VIDA, PAIXÃO E MORTE DE MESTRE CUCA

            Nasci numa cozinha, morri noutra, e tive a vida marcada por elas.. Meu signo de Libra, bem apropriado para um súdito inglês, não explica essa fatalidade. Talvez o faça o horóscopo chinês, onde tudo parece ser possível. Onde fui gerado, ignoro. Meu pai, tradicional diplomata inglês, não permitia que as conversas chegassem a essas intimidades. Morreu com o segredo. Mesmo aqui, do lado de cá, o velho não se abre. Continua me evitando, indigno que me acha da nobre estirpe. Mesmo defunto, não perdeu a pose. O nascimento, é certo, deu-se na cozinha de nossa mansão, em Piccadilly, durante um bombardeio de V2. A casa sofreu danos sérios e mamãe, ferida, foi carregada para a cozinha, que permanecia intacta. O susto e o horror da situação precipitaram o nascimento prematuro, assistido pela habilitada cozinheira da família. Assim cheguei ao mundo: durante uma guerra, ao pé do fogão, o ar recendendo a carne assada, de porco e gente. Minha mo...

A GAROUPA ENTOCADA

            Manhã fria, chuvinha teimosa, praia cinzenta. Mar, céu, tudo cinzento, sem contornos. Mundo inteiro sem cor, chumbo derretido, chumbo frio. Vento. Vento que machuca a cara, o peito, entra nos ossos, na medula, invade o cérebro, vazio de pensamento. Mar feroz, batendo na areia. Areia molhada, barraca úmida. Goteiras na costura (Impermeável, sim senhor! O melhor modelo, conforto de casa!). Tranqueira espalhada, fogão, panelas, crianças chorando. (Fuja da poluição! O campismo põe você junto à natureza. Ar puro, descontração, liberdade!). – São só duzentos quilômetros até Ubatuba – dizia o cretino do Paiva. – E você não vai querer passar a semana santa aqui, coçando o saco na frente da televisão. Vamos, homem, sacode esse corpo! De noite. Sono pesado, corpo doído. Mar subindo, perigo. (Essa agora!). Ondas rebentam como gengivas brancas mordendo a areia. Mulher grita. (Nossa Senhora!). Crianças choram. Chuva cai, vento corta. De dia. Chuvisco mi...

B. O.

            O Senhor Doutor me desculpe, mas me dê licença para prestar queixa contra um cabra malvado de nome Donato de Jesus. Do Santo ele carrega só o nome, pois tem cara de boi sonso mas sua mansuetude é falsa: lobo em pele de cordeiro. Tem a boca carnuda de uma Iracema, mas que, ao contrário, destila, não o mel da virginal pessoa, mas uma peçonha de cheiro bom que atrai e cativa a incauta vítima que dela prove, e que torna a desgraçada para sempre viciada. Seus olhos, pretos da cor da noite profunda, brilhosos de jabuticaba madura, não são de humana espécie, são de lince e percebem a presa a qualquer distância, se aquém do horizonte esteja. E pobre dela que não mais lhe escapa. Artimanhas de raposa: de início, possui ele a delicadeza de um colibri beijando a flor e o toque suave de mãos de fada; mas não dá ponto sem nó, o danado. Água mole em pedra dura, quando do enlevo desperta a donzela e de si se dá conta, a vaca já foi para o brejo e a menina...