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Mostrando postagens de maio, 2014

BAILE DE MÁSCARAS

            Hoje quase não se usa, mas houve o seu tempo. Tempo em que era eu um jovem acadêmico, quase meio engenheiro, às voltas com um trabalho da cadeira de cálculo estrutural. Sonhava com trigonometrias e hipotenusas e, efeito da idade, sonhava também com musas hipotéticas. Creio que tinha, então, a cabeça dividida ao meio, uma parte ocupada por matemáticas e a outra preenchida de hormônios. Como se vê, era perfeitamente normal nos meus vinte anos.             A universidade, no norte do Paraná, não era grande e todas as faculdades             eram próximas entre si, formando um campus pequeno. Um único centro acadêmico congregava todos os estudantes e, afora seus intermináveis cursos de marxismo, notabilizava-se, nosso centro, por organizar na semana de carnaval um magnífico baile de máscaras. Pelo menos no m...

O RETORNO DE ULISSES

            Descera ele em Cumbica tarde da noite e ficara perambulando pelo aeroporto até amanhecer. Não valia a pena ir para casa àquela hora, seria até perigoso. Está sem notícias há quinze anos, não sabe mesmo se Sweden continua morando em Paraisópolis, no barraco levantado com tijolos de demolição, lembra bem, muito vermelhos, pois cozidos duas vezes, no forno da fábrica e pelo sol. Não sabe, também, do filho, que ia fazer dois anos quando ele, pai, partiu para o Líbano. A mulher não queria que fosse, mas conformou-se; como lutar contra um chamado da raça? O sangue de irmãos sendo derramado todos os dias em ataques de Israel, em Gaza e na Cisjordânia, os assentamentos judeus a invadir diuturnamente territórios árabes, Jerusalém sitiada, quanta desgraça a afligir seu povo! Aquilo tudo, engolido um dia atrás do outro, agia como uma úlcera que lhe devorava as entranhas.          ...

PITECANTROPO

            Encontrei Pitecantropo ao entardecer de um dia de março, há alguns anos. Calei-me até agora por duas razões: respeito aos motivos dele e horror que tenho a qualquer tipo de notoriedade pessoal. Sou de temperamento eremita, avesso a holofotes.             No entanto, nestes poucos anos, venceu-me a obrigação de compartilhar com o mundo minha descoberta. Enquanto em Java uma calota craniana, um fêmur e alguns dentes foram escavados por Dubois, tive eu o privilégio de ver o indivíduo em carne e osso, respirando, como eu o mesmo ar quente e úmido de Mato Grosso.             Estava eu embrenhado naquelas ermas matas com o objetivo único de pescar alguns dourados, não para comê-los todos, apenas um, os outros ia devolvendo às águas claras, numa demonstração não filmada de meu respeito à mãe natureza. Esta...