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Mostrando postagens de agosto, 2014

BURBURINHO

            Sento-me à mesa e reservo a cadeira ao lado; as duas de frente, por solidariedade, também se sentem reservadas. Cheguei cedo. Eles logo virão. É o almoço mensal do clube da bengala, atualmente com quatro membros. Já teve seis, dois morreram. Se fôssemos pessimistas, faríamos aposta de quem será o próximo. Mas não somos. Ao contrário, somos otimistas; como todo velho, julgamo-nos eternos. Somados os anos, somos já mais de três séculos de experiência. Uma boa parcela de eternidade!             O salão é grande, com muitas mesas e bastante gente nelas. A comida é exposta em longo balcão e, no fundo, a churrasqueira com seus gaúchos. Os fregueses se servem no bufê e, se querem, pedem seus nacos de carne. O sistema provoca andança geral, os comensais com pratos na mão, no ato de se servir e voltar às mesas e os garçons na azáfama de retirar pratos e restos ou de ...

DOCE DOCÊ

(Erotismo Caipira) 1             A mãe disse pra eu tomá cuidado co’os home. Falô qui eles são danado, querem sempre se apruveitá di nóis. Mas num intendi direito o pruquê disso, eles são tão educado, cheios di gentileza, tão sempre sorrindo pra gente. O Bento me compra pipoca, me paga sorvete, diz qui sô bonita e me beja a mão como si eu fosse princesa, sempre com muito respeito. É um gentlemã, como diz as fita de cinema. 2             Falei onte em fita de cinema. Pois num é qui Bento mi convidô pra vê um firme? Fiquei pertubada lembrando du qui mãe diz e repete: toma cuidado co’os home! Mas Bento é tão educado e atencioso, num vai querê si apruveitá di eu. Num tive corage di recusá. Vamo no cinema domingo de tardinha. 3             Hoje di manhã fui na missa. Armocei o macarrão da mãe, esperei uma ho...

VÔ GRANDÃO E VÓ MACIA

            A porta abre e eu grito: olha quem chegou! Vô grandão me levanta do chão e me aperta em seu peito. Gostoso, mas bato pernas, quero chão, corro para os braços abertos de Vó macia. Novo aperto contra peito, forte mas nem tão; mais macio, deve ser por causa do peito grande da Vó que Vô não tem. Ou será porque Vó tem beijo doce? Ou porque Vô tem beijo de barba que pinica?             Na prateleira, do lado da tevê, meu boneco Piqui, que Vô pensa que é dele. Pego e ponho no chão, que é seu lugar que eu gosto. Gosto também do carrinho brilhante, na prateleira alta, mas Vô não deixa. Levanto os braços, bato pé e Vó macia vem devagarinho. Ela sempre vem. Vem, pega o carrinho e me entrega. Toma, mas cuidado! Não vá quebrar que o vovô fica triste. Não quero quebrar, só quero brincar.             Ponho o carro...

O TURÍBULO

            Os cabelos encanecidos de padre José começavam a rarear ou, talvez, por se tornarem mais finos, deixavam de ocultar aqui e ali pedaços da pele rosada de sua cabeça. Completara ele cinquenta anos e caminhava celeremente para os sessenta, como sói acontecer a todos que ultrapassam aquela idade, verdade esta sabida dos mais velhos e inacreditada por todos os demais viventes. Só sabe do sal da sopa quem a sopa toma.             A paróquia era tão velha quanto o padre e a cidadezinha ainda mais velha que os dois, sendo todos, em conjunto, igualmente pobres. Pobre, portanto, era a freguesia e suas espórtulas mirradas eram todo o sustento do vigário. Vivia ele de batina rota, salpicada de pequenas queimaduras causadas por faúlhas do cachimbo torto. Era seu único vício. Padres também os têm.             Nas tar...

BRANQUINHA

            Branquinha era a menina mais preta da rua. Seu nome nem era esse, mas, de tanto o pai chamá-la assim, o apelido pegou. O pai, desiludido da vida, misantropo, jamais quisera filhos; dizia, como Brás Cubas, que nunca haveria de transmitir a nenhuma criatura o legado da miséria humana. Contudo, alcoólatra empedernido, num momento de alienação etílica e exacerbação hormonal, contribuiu para plantar no ventre esquálido de Pretinha a semente que viria a ser sua filha, fruto do alheamento moral de uma carraspana. Sim, era sua filha, sim, mas ninguém podia negar, era principalmente o produto da “marvada” pinga, a companheira dos dias escuros e das noites em claro, clara nos copos de todas as horas, a famigerada “branquinha”. Não fora a cachaça, não teria havido filha; nada mais natural, portanto, de chamar de Branquinha a menina.             Explicado assim o nome da ...

MACAQUINHOS NO SÓTÃO

            Acordei hoje com ideias de jerico. Quis escalar o Everest, mergulhar nas Fossas Marianas, esquiar no Monte Branco, banhar-me nos sopros ferventes dos gêiseres de Yellowstone, mas, como tenho índole moderada, sofreei esses impulsos puxando-me a orelha esquerda, ação que sempre dá certo se o dia é par. Se fosse dia ímpar puxaria a direita. Nunca me engano porque também, além de moderado, sou prevenido, tenho um calendário digital ao pé da cama, que me avisa com dígitos luminosos o número certo do dia que amanhece.             A eficiência do gesto é instantânea: os desejos asnáticos cedem e volto a ser o homem temperado que sempre fui. Como sou metódico, nunca erro, dia par orelha esquerda, dia ímpar, direita. Às vezes tenho curiosidade de saber o que aconteceria se puxasse a orelha errada. Poderia experimentar só para ver o que acontece, mas tenho medo, não s...