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Mostrando postagens de agosto, 2017

SILÊNCIO

            José Maria perambulava pelas ruas estreitas do centro velho e desviava dos corpos estendidos que ia encontrando pelas calçadas. Naqueles tempos de crise a população de moradores de rua havia aumentado e era frequente encontrá-los. A cidade crescera pelos lados do espigão e o progresso levara para lá bancos e escritórios e, onde antes eram mansões de barões do café, agora se erguiam prédios e mais prédios que disputavam entre si quem chegaria mais perto das barbas brancas do porteiro do Céu.             O velho centro mantinha, contudo, um ar aristocrático com suas construções “art-déco” e postes de ferro preto. Bares nas esquinas, farmácias nas praças e, pelas ruas, magotes de gente em busca do comércio variado onde era possível se achar de um tudo. Em ruas especializadas podia-se garimpar de miudezas a preciosidades e José Maria acabara de entrar na ruela d...

CLEMÊNCIA

            Naquela manhã de sol Oto acordou e se surpreendeu velho, acabara de fazer oitenta anos. Era, com perdão da má palavra, um octogenário, deixara para trás a malfadada década dos setenta, quando estivera por diversas vezes à pique de soçobrar e chegava, então, ainda vivo aos oitenta. Agora ali estava ele, um Oto octogênico, quase um cacófato. Carregava ainda a lembrança dos setenta e, por isso, refreava com cautela aquele otimismo inocente que teimava em acompanhá-lo desde que se dera por gente. Era um novo começo. Quem sabe a sabedoria da idade pudesse ser o freio que faltava para segurar ilusórias esperanças. Sentiu ser chegada a hora de fazer um balanço final. Ele, que sempre olhara para frente, que fora muito prático em toda a vida, enquanto fazia a barba foi amadurecendo a resolução: deixaria por ora de olhar para o futuro — cada vez mais curto — e voltaria sua atenção para o passado, longínquo em anos e distante n...