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ANGELUS

             Seis horas da tarde, o sino da matriz chama os fiéis para a oração, quebrando o silêncio que dormia no ar morno. Beatas atrasadas cruzam pressurosas o jardim da praça. O Sol já se pôs há algum tempo, mas, distraído, esqueceu de recolher alguns raios que pinicam as partes baixas de umas poucas nuvens vadias, que cismaram de fazer trotoar pelo caminho lusco-fusco do horizonte, pouco acima da linha que costura o Céu na Terra dormente. Como marimbondos de fogo, aferroam as nuvens que alcançam e as fazem sangrar com aquele sangue aguado que é próprio de sua hídrica natureza. Do que resulta, visto assim de longe, que uma faixa encarnada intermitente pareça boiar na serenidade de um oceano de ar. Um poeta que visse o quadro talvez usasse de uma expressão mais requintada, do tipo “fímbria carmim” ou “serpente escarlate” para descrever a cena; mas a mim, humilde prosador, compete-me manter a compostura de uma mente cartesiana. Mesmo porque meu interesse não está na beleza ou na tristeza do poente, e se a ele observo não é para fruir gozo estético ou enlevo religioso. Uma missão mais séria me traz a este cenário: sou um caçador de anjos. A bem da verdade, nem creio que eles existam de fato, mas a missão foi atribuída, e dela não carece desistência.
            Olho, e não vejo, procuro e não acho. Dizem que esta é a hora em que eles vêm passear entre nós, mortais. Alguns — certamente exagerados — juram tê-los visto a dançar, num bailado etéreo, como plumas ao vento. Leves serão eles, sem dúvida, pois que desprovidos de pecados, mas não tão diáfanos que se tornem invisíveis aos meus olhos treinados de caçador. Por que então não os vejo? Será mesmo esta a hora certa? O lugar certo? A hora não pode ser posta em dúvida; há que se respeitar a tradição; mas o local tanto pode ser este como infinitos outros. Basta lembrar que seis horas serão, de instante a instante, em meridianos sucessivos, à medida em que avança o Sol no seu caminho lento. A cada segundo a hora dos anjos se fará em novos sítios, sempre mais a oeste, aprisionada que é pelo arrastão do resto de rede, de fios dourados tecida, que ele vai esquecendo atrás de si, cativa como um peixe tolhido nas malhas de um pescador desatento. Dançarão os anjos em cada um desses momentos, em cada um desses lugares? Para estas questões não se acha resposta nos compêndios da Geografia. Encontrá-la é minha missão.
            Cansado de bimbalhar, o badalo do sino da matriz perde o ímpeto, e o som imperioso que produzia vai amolecendo até se tornar uma mera súplica e, logo mais, nem isso. O silêncio quebrado recolhe seus pedaços e, de novo inteiro, estende na paisagem seu manto suave.
            Não farão outra coisa, os anjos, se não dançar o tempo todo em pós de nossa estrela poente? Ou dançarão apenas de quando em quando, em privilegiados sítios, para escolhidas pessoas? E se assim for, de qual critério se valem eles? Por certo serão magnânimos e se revelarão aos mais necessitados e, neste caso, perco a esperança de encontrá-los, pois necessitado não sou; tenho posses e posição.
            Minha mente especializada, no entanto, contra a lógica e o bom senso, insiste em continuar a busca. Metódica, persiste. E não vê senão uma nuvem de pirilampos a rodopiar no ar cálido que do solo se desprende, como se pingos de luz estivessem a ser açoitados por um vendaval que não existe. Um punhado de crianças, como um bando de borboletas, invade o campo de vaga-lumes e se mistura com eles, turvando de alarido a limpidez do silêncio. Tremelicam, de início, os pingos de luz e ameaçam se dispersar, mas logo voltam a voar em círculos e retomam à dança, incorporando nela a meninada. Estes vagalumes me distraem do trabalho; lembram a infância distante, o ar aquecido como agora, os olhos de menino que ainda não caçava anjos, mas que os viam por toda parte, no altar da igreja, no vôo dos passarinhos, na dança dos pirilampos. Como eu, então, estas crianças de agora creio que veem também os seus anjos, e com eles brincam; saltos e corcoveios são respondidos com piscos fosforescentes, e neste diálogo lúdico parece que são resolvidos todos os enigmas do universo. E eu, que procuro anjos em forma humana, que exploro o horizonte com olhos cegos de tanta ciência, de repente me dou conta de que eles existem sim, e que estão ali pertinho, e que falam, com as crianças, comigo, e com quem mais queira e tenha a inocência de entendê-los, acendendo e apagando as luzinhas em cadência misteriosa, numa linguagem codificada. Apenas há que se buscar no fundo de nosso abismo interior a criança esquecida, e deixar que ela venha à tona da consciência, e segui-la sem resistência, nas momices e cabriolas, nos sonhos e nas loucuras, até que o velho Champollion ressuscite para decifrar esta nova Roseta.

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