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O VELHO E O CÃO

Era velho, ranzinza e ateu. Tinha oitenta anos, enviuvara havia dez e só não estava completamente sozinho porque vivia com um cachorro, também velho como ele. Pegara o cão na rua, quando retornava do enterro da mulher. Era um vira-lata, ainda filhote, que perambulava sem destino, magro e abandonado. Levou-o consigo. Não por caridade, mas por cálculo: teria companhia para dormir à noite, na casa vazia. Embora ateu, tinha medo de fantasma. Medo que vinha dos tempos de menino, quando escutava, atrás da porta, as conversas de assombração dos adultos, ao redor da mesa, depois do jantar. Mais tarde ia dormir e arregalava os olhos no escuro, até que começava a ver manchas brancas a dançar em volta da cama. Aí apertava as pálpebras, enrodilhava-se em posição fetal e puxava as cobertas para cima da cabeça. Prendia a respiração e ficava a tremer, até que o sono, cheio de pesadelos, vinha resgatá-lo para outros perigos. Por mais que tudo isso fosse ruim, poderia ter sido pior; sempre havia mais pessoas a dormir na mesma casa; não se lembrava de ter dormido sozinho uma vez que fosse, em toda a vida. Foi assim que, morta a mulher, substituiu-a pelo cão. Não era propriamente uma pessoa, mas era um vivente. Não falava, é certo, mas não fazia diferença; havia anos que ele e a mulher já não conversavam e, nas poucas vezes em que ela dizia alguma coisa, ele não ouvia.
            Agora, já lá iam dez anos. O animal estava velho e claudicante, como o dono. Perdera alguns dentes e sofria de reumatismo, igual ao dono. O velho percebeu que o amigo não duraria muito, mas ele próprio sentia que também não ia longe. Qual dos dois iria primeiro?
            Deu de matutar no dilema.
            Se o cachorro morresse antes, ele ainda podia arrumar outro; mas, e se fosse o contrário? O pobre do cão não conseguiria outro dono: quem ia querer um vira-lata velho e doente? Sozinho, abandonado, o coitado não teria a mínima chance de sobreviver. Não possuía mais a vitalidade da juventude, para disputar o lixo com a cachorrada. Em pouco, morreria também, de fome. Mas, por que cargas d’água era a mãe natureza tão injusta? Ele próprio era um velho, mas já tinha oitenta anos! Mas o seu cão tinha só dez! E no entanto era tão velho como ele. Se pudesse viver também oitenta anos, seria agora pouco mais que um filhote.
            E assim, sem que se desse conta, o dilema existencial foi se transformando em um problema filosófico.
            Se o bicho vivesse oitenta anos, não ele, individualmente, mas a espécie, e se isso sempre houvesse ocorrido, desde priscas eras geológicas, não poderia ser o cão um ser tão inteligente como o homem? Não poderia ser um canis sapiens? Se, ao contrário, o homem tivesse sempre morrido aos dez anos de idade, não teria ele permanecido obtuso durante todos os milhares de gerações? Se se deixar um filhote humano sem o benefício da educação, ele chegará aos dez anos inteiramente embrutecido. É muito pouco tempo para que se desenvolva, de per si, habilidades de raciocínio e pensamento. Bruto será.
            Como o terreno filosófico fica à beira do pantanal metafísico, em breve estava o velho a chafurdar em seu lodo mefítico.
            Se, pois, o homem fosse bruto e o cão, inteligente, não seria o cão o senhor do mundo, e o homem, seu bicho de estimação? O mundo, talvez, fosse até mais nobre...
            Nobre... nobre... rodopiavam na cabeça do velho palavra e conceito. Até que resolveu tomar uma decisão nobre; a mais nobre que já tomara. Não deixaria o leal companheiro passar vicissitudes. Levou-o ao veterinário e mandou sacrificá-lo.
            Naquela noite dormiu só.
            Pela primeira vez na vida.

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