Pego-me a olhar para esse homem diante de mim. Velho e gordo, as manchas de senilidade salpicam-lhe a pele translúcida das mãos. Inertes, são mãos pálidas de onde nascem cordões roxos, que à maneira de raízes, por sob a pele, lançam-se para o alto e galgam os caules dos antebraços, estranhamente finos para o tamanho do corpo. O rosto é desbotado e comprido em demasia porque se une à calva, também cheia de manchas, e causam um efeito longitudinal, que parece dividir simetricamente o crânio, limitado por tufos de cabelos brancos e duas imensas orelhas. Nos olhos, o brilho — se algum dia existiu — está eclipsado pelos véus da catarata; e os peitos, salientes de gordura, são caídos como os de mulher pobre parideira de vintena. O abdome começa logo abaixo deles, em flagrante desrespeito à regra anatômica, e descreve uma curva contínua até as virilhas, as quais encobre totalmente. Por não se ver, supõe-se que um cinto aperte as calças por debaixo daquele universo de banha, que transborda por todos os lados, como um bolo de aprendiz que errou a mão no fermento. A massa toda do homem se apoia sobre dois gambitos arqueados, sugerindo que o frágil equilíbrio conquistado está por se romper a qualquer momento. A impressão geral que a figura transmite é a de um desastre da natureza: — Como pode estar toda junta num só ser tanta decrepitude? Será possível que isso aí seja uma criação de Deus?
A janela atrás do homem enquadra um naco de paisagem urbana: construções cinzentas, uma esquina, uma calçada. Na calçada passeia um cão obeso, tirado pela dona, igualmente rotunda. Mais além, a memória lembra, depois da cidade e da colina, há um campo e nele pastam bois e vacas, e um burro velho, trôpego e quase cego. Na pocilga refocilam-se capões banhudos, que de tão pesados passam o dia adernados no solo, qual bojudas naus encalhadas em banco de areia. O cão, o burro, os porcos, são outras tantas criações de Deus? Obesos, velhos, cegos, não foi assim que a natureza os fez. Há aí a mão do Homem. A seu talante ele escolhe: — Este será gordo; este será velho. Subverte a regra natural e supre insuficiências com sua humana providência. É certo que existem espécies que são naturalmente gordas, como os hipopótamos, focas e baleias, mas nestes casos a ocasional gordura é reserva vital. Nem de longe podem ser comparados a esses cães gordos que arrastam as panças bojudas a centímetros das calçadas, nas manhãs frescas, a mimetizar a rotundez dos donos.
Esse velho balofo e caquético, a dois passos de mim, o cão, o burro, os porcos, todos eles me fazem lembrar a fábula do Reformador da Natureza, do homem que queria corrigir Deus e colocar a melancia no galho da ameixeira e a ameixa na ramagem da melancia; e, por estar quente o dia, adormece à sombra da ameixeira e é acordado por um fruto maduro que se lhe esborrachou na testa. Quando o Homem se dispõe a corrigir a Natureza o resultado é sempre desastroso: que desperdício de tempo e esforço, para quê? Para produzir um velho como esse aí, um triste arremedo da espécie? Se fosse pelas leis naturais, há muito já estaria morto, pois mal tem forças para se manter de pé, que dirá lutar pelo sustento. Na natureza não existem velhos; o velho é uma criação humana. A Natureza criou o Homem, e o Homem criou o Velho. A comida que ele come (e deve comer bem, o danado, a julgar pelo espaço que ocupa!), a bebida que bebe, não seriam melhor aproveitadas para outros, jovens e crianças? Quantas crianças passam fome neste mundo...
Sem que me dê conta, uma raiva surda cresce dentro de mim. Ao mesmo tempo o homem começa a respirar com dificuldade e um chiado de gato se lhe escapa do peito; seu rosto se tinge de um azul cianótico, mas nada disto contribui para diminuir minha revolta. Pelo contrário, quanto mais apoplético fica o velho, mais tenho ímpeto de me atirar sobre ele e fazer justiça com as próprias mãos, corrigir o erro, restabelecer a ordem natural das coisas. Refreio-me com dificuldade: — Que diabos! Sou de temperamento pacífico.
Para evitar um mal maior consigo sufocar esta raiva, no instante mesmo em que percebo nos olhos mortiços do velho um brilho insano a lampejar por trás das cataratas.
Claudicante, dou meia volta... e afasto-me do espelho.
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