O doutor há de estranhar que o que vai ler está tudo direitinho, nos conformes. È que um vivente de muita leitura não se vexou de botar os pingos nos is e as vírgulas extraviadas, deixando a escrita plana, mas com algum desvão de sotaque da minha terra, pois é seguro que barba e cabelo cortados em barbeiro não disfarçam as alpercatas nem o gibão de couro do matuto. Rústico sou, ao natural ou tingido de leituras, mas maínha me ensinou, desde o berço, a ser agradecido. Por isso a primeira palavra é para homenagear esse vivente das Alagoas, que se desvia dos seus cuidados para cuidar desta parolagem. Não será ela sem sentido, apois, se o peixe sempre morre pela boca, ao bicho homem é dado, por ela, alcançar a salvação ou a perdição. Por rezas e bem-querenças ganha uma, por maleditos, a outra, quando não lhe protege o facão bem temperado e o braço forte. Não será o caso presente, pois na justiça de Deus confio e à dos homens recorro. Ao Céu, rogo com a mediação do meu querido Padim Ciço, sempre influente junto à Virgem das Graças; à justiça dos homens me entrego, de alma lavada e facão arriado. Notará o doutor que o facão também está lavado de novo, sem nenhum vestígio do sangue ingrato que inté há bem pouco lhe maculou a lâmina e desgraçou-me a vida. Não resta mais sinal algum daquele sangue ruim de um e da outra, que acabaram por se misturar na lâmina do aço e que nunca teriam de ter se misturado, quer no aço quer na cama, se uma tivesse cumprido a jura do altar e o outro, a obrigação de amigo e compadre. Mulher tem mesmo cabeça fraca, todo mundo sabe, mas de cabra macho é devido respeito e cumprição de lealdade. Veja o senhor doutor que eu fazia de um tudo para mó de agradar a Dasdores: a rapadura mais doce do armazém do Zé Tião, a chita mais florida do bazar do Turco, a sinhaninha mais vermelha... De que adiantou? Mais valia tivesse desrespeitado eu, antes dele, a comadre mulher do traidor. Vontade ora se tive, que a dona é suculenta e carnuda, a boca tal pitanga madura. Mas qual, perto da comadre os olhos desviavam para o chão e para o desvão. Donana era a mulher do compadre. Merecia o respeito. Calcava então no salto da bota o pensamento torto e pinchava no fundo da cisterna o desejo que me inflamava as partes. Mas não adiantava não, um e outro voltavam a galope, era só ver de novo a comadre. Pois não consegui eu sufocar essa precisão danada, mó de respeitar a obrigação de compadre? Era de esperar que ele fizesse o mesmo da banda dele, inda mais sendo a Dasdores tão miudinha e desprovida. Deu até pena descer o facão nela, mas que podia eu fazer senão isso? Virar motivo de zombaria, ser apontado como galhudo e frouxo? Até que dela tive dó, mas dele, não. Nela foi um golpe só, tadinha, de tão tenra quase se partiu ao meio, mas com ele foi uma selvageria. Não sei se a carnificina foi só pela raiva da traição, mas tenho comigo que também contou o remorso de não ter eu aproveitado das benesses de Donana, por respeito de dever. Quanta noite não passara em claro, apertando-me ao gorgorão da rede, torturado pela visão daquele corpo fornido, lambendo o seu cheiro de flor... Creio que foi essa frustração antiga que me cobrou vingança, que me inflamou no peito o ódio do tempo e dos prazeres perdidos. Por isso o facão subia e descia, azoretado, porque o fogo no peito queimava e queimava. O braço só parou quando gastou a força, e a gastura consumiu também a raiva. Mas a desgraceira já estava feita: enquanto a Dasdores podia se acomodar inteirinha no caixão, o Bento ficou em pedaços. Foi só depois de tudo acabado, da sangueira correndo solta no lajeado, foi só então que me dei conta de que a raiva não tinha sido contra o compadre e pela Dasdores, mas contra o compadre por Donana. Que diabo, não fosse meu proceder respeitoso, podia ter apreciado a canja da comadre, naquela noite em que Bento tocava tropa para Cruz do Brejo. Mas não, coração saltando inté a goela, refuguei do oferecido. Disparei sem olhar para trás. Se olhasse, voltava, que a comadre estava com olhos de apetite. O sangue latejava na fronte como jugular de jegue novo e uma queimação abrasava-me as partes. Piquei de novo os quartos do burrico para apertar o trote, mas o que via em minha frente eram os quartos da comadre, e essa visão me tirava o fôlego e secava-me a garganta. Para mó de respirar, tive de abrir um tantão a boca para deixar o vento entrar. O peito se paralisara e o vento teve de fazer nos pulmões um trabalho de monjolo. Aos solavancos, voltei a respirar. Antes não tivesse, teria evitado tanta tragédia. Há o doutor de concordar que fiz de um tudo para cumprir a obrigação com o compadre e com a comadre e que não fiz senão o justo quando o encontrei mais Dasdores no leito da traição. Tinha de matar os dois. Mas não carecia precisão de tanto furor. Não fora Donana... Por isto lhe mando este particular. É para esclarecer o ocorrido e apontar a culpada.
Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo. Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...
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