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VICENTE CELESTINO


            Esta historieta aconteceu há muitos anos, ainda na primeira metade do século passado e, portanto, todas suas personagens já estão mortas há bastante tempo. Por que então contá-la agora? Porque, creio eu, os mortos ensinam aos vivos. É uma história de fé, de fidelidade, de coragem, de amor. Só por isto valeria ser contada. Mas também tem ignorância, truculência e fanatismo, igualzinho aos dias de hoje, demonstrado é que a espécie humana sempre evolui na busca do poder, e nunca em sabedoria.
            Passou-se a história em uma pequena cidade do interior paulista, à beira da linha da mogiana. A época é o final dos anos 30, pouco antes da Grande Guerra. O avanço tecnológico de então era o rádio e as famílias se reuniam ao redor dele, à noitinha, para ouvir em meio a chiados notícias do distante e quimérico mundo. Havia também programas musicais, onde artistas de prestígio soltavam a voz para enlevo de públicos fiéis. Moços e moçoilas se apaixonavam no embalo das vozes macias de Carlos Galhardo, Orlando Silva e Dalva de Oliveira, sem prejuízo de outros, que preferiam as vozes másculas de Vicente Celestino e Francisco Alves. Antônio era um destes, preferia Celestino.
            Sonhava ouvir um dia seu cantor de perto, os agudos daquela voz portentosa, quem sabe até apertar a mão do homem e agradecer a Deus e a ele o momento mágico. Mas, qual! Era só sonho. Com seu parco ganho de pedreiro, mulher e dois filhos pequenos para sustentar, nunca que poderia viajar até a cidade grande. E nunca que o grande Vicente Celestino viria a se apresentar na pequena cidade escondida atrás da colina. No entanto, puro engano, foi isso mesmo que aconteceu.
            Foi no começo do inverno, mês de junho. Vicente tinha programadas três apresentações em Ribeirão Preto e decidira estender a turnê, como se falava na época, às cidades circunvizinhas. Para a cidadezinha de Antônio calhara o dia santo de Corpus Christi. Melhor, era um dia sem trabalho, Antônio podia tomar um demorado banho de cheiro, passar óleo Nujol nos bastos cabelos pretos e vestir a roupa domingueira. Não contava ele, porém, com as artimanhas do diabo, no nosso caso representado, e muito bem, pelo padre Ferrabrás.
            Verdade que o nome certo do padre é Ferrás, mas tão truculento era ele, que acabou sendo apelidado de Ferrabrás pelo próprio rebanho que pastorava. Era furibundo em suas homilias. Moça decotada não entrava na igreja, pouca vergonha. Amor carnal só no santo matrimônio, e exclusivamente para procriação; no mais, pura sem-vergonhice. Espiritismo, protestantismo, e todos os outros ismos, coisa do demônio. No confessionário era um terror; as crianças de primeira comunhão ajoelhavam-se frente à treliça de faces vermelhas, rubor de saúde. Era de vê-las como saíam! Cambaleantes, caras pálidas, anêmicas de medo. O padre ameaçava: o anjo do Senhor viria a qualquer momento cortar com a espada da justiça aquelas pequenas mãos pecadoras...
            A figura, mesmo, do padre era de um Torquemada. Vigoroso, beirando os cinqüenta anos, tinha arcabouço avantajado e músculos de titã. Na época em que já não se usavam mais barbas compridas, moda que vigorara até o final do século 19, tinha-as ele bastas, negrume de azeviche que tornava ainda mais agressiva a carantonha de besta fera.
            Pois foi este delegado do além, que trazia em rédea curta seu aterrorizado rebanho, o responsável pelo fiasco da apresentação de Vicente Celestino naquela pacata cidadezinha. Ao tomar conhecimento do dia em que deveria acontecer a audição, abespinhou-se. Mas como, no santo dia do corpo santíssimo de Jesus? Absurdo, ultraje, heresia! Com a força haurida das profundas, declarou guerra santa aos novos fariseus, marcou novena para a noite do espetáculo, ameaçou com o cutelo de Gabriel aquele que faltasse ao santo chamado, prometeu excomunhão aos infiéis que tivessem o desplante da desobediência e ousassem comparecer à audição. Qual ressuscitado Cipião, terminava os cultos com o mesmo brado do senador romano: – Delenda! Só que, ao invés de Cartago, o alvo agora era o Cine Theatro, local profano, especializado em perdição.
            Tanto fez o padre que na noite de Corpus Christi a platéia do Cine Theatro não passou de doze pessoas, Antônio e mais onze, todos homens. Nenhuma mulher tivera a coragem necessária.
            A esta altura, e antes que me pespeguem adjetivos que não mereço, é preciso que se abra um parêntese para deixar claro, autor modesto que sou destas mal traçadas, que não me move qualquer intenção malévola contra a igreja, religião ou mulheres. A todas tenho respeito e às últimas, em especial, além do respeito, devoção. Não posso, porém, faltar à verdade, e a verdade da história é como a digo. Fecho o parêntese.
            Aquele punhadinho de gente! Certamente seria cancelada a audição. Mas, não. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o cantor decidiu seguir o programado; haveria, sim, espetáculo. Pediu que um violão ficasse consigo, dispensou o restante dos músicos e deu início ao recital. Ah, dispensou também o microfone e chamou toda a platéia para perto de si. Antônio, que havia comprado o ingresso mais barato, passou da última para a primeira fila, ficando bem perto daquele homem, que mais parecia um deus.
            O espetáculo foi transcorrendo, íntimo, diria quase em feitio de oração, não fora a voz do homem, que estrugia e ribombava como trovão nos agudos da melodia. A platéia, embevecida, qual doze pares de França, privilegiados, era levada ao delírio e explodia em palmas frenéticas cada vez que uma canção findava. E eram tantas, todo o repertório. Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer; esta porta não se fecha, contra ela não há queixa, são os braços de Jesus; aos pés da santa cruz você se ajoelhou; e tantas mais.
            Difícil ressaltar, mas houve um momento único, indescritível. Foi quando Vicente Celestino chamou um por um ao palco e a cada um abraçou, enquanto cantava. E de todos tomava a mão e a colocava espalmada de encontro ao peito, para que sentisse sua vibração. E Antônio pôde, assim, ir além do sonho sonhado, experimentando na palma da mão a trepidação daquele pulmão fantástico e, no abraço, o pulsar do coração generoso.
            Até o fim da vida Antônio contou esta história, e cada vez que o fazia, com renovada emoção. O que ele nunca soube, porém, é que, até morrer, Vicente também a contava.

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