Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de outubro, 2013

ZECA MONTANHA

              José Carlos Montanha nasceu mirrado, cresceu mirrado e mirrado se tornou. De grande conservou apenas o sobrenome. Criança frágil, foi saco de pancadas dos coleguinhas de escola; moço fracote, foi jogador reserva; homem feito, usado como padrão de insignificância. E, no entanto, tinha lá suas ambições. Queria ser feliz.             Desmentindo todos os axiomas das sete psicologias não era complexado, levava numa boa as gozações de que era alvo e até se divertia com elas. Esse bom gênio conseguia desarmar os espíritos e fazer amigos, que o estimavam com sinceridade.             Como todo José Carlos, seu apelido não podia deixar de ser Zeca; naturalmente começou como Zequinha, mas, com os anos, acabou mesmo por virar Zeca, evolução natural, comum aos inúmeros homônimos, porém, diferente destes,...

CADERNO NOVO

Comprei um caderno novo. Sem manchas, sem marcas, não fossem as vinte e poucas linhas paralelas em cada página, eu poderia imaginar estar diante da famosa “tabula rasa” dos filósofos. No entanto, as linhas horizontais, que se sucedem em intervalos idênticos, perfeitamente retas, dividem o espaço metodicamente e parecem induzir o mortal que por elas se aventure a caminhar direto, sem curvas ou atalhos. Bom para mim, que derrapo nas curvas e me perco nos atalhos. Contudo, apesar desta ligeira limitação, a página vazia, tábua limpa, aceita o que quer que eu escreva. Nela poderei dizer o que não foi dito, afirmar verdades novas, imaginar mundos e fundos, criar o incriado, qual um deus onipotente. Mas aí me lembro que Deus escreve certo por linhas tortas; talvez por isso os cadernos sejam feitos com linhas retas, para que o escritor não venha a se imaginar mais do que é. De qualquer modo, uma página em branco é sempre um convite, um desafio. É como o par de tênis novos que o moleque do...

ONTEM E HOJE

Naquela noite fria de fim de inverno meu pai esperava sozinho a invasão dos mineiros. Era o ano de 1932 e aquele moço de 24 anos, a bem da verdade, ainda não era meu pai, mas viria a sê-lo cinco anos mais tarde. A revolução constitucionalista de São Paulo havia inflamado o ânimo cívico da população da pequena cidade de Orlândia, ao norte do Estado, na região da alta mogiana. Voluntários se apresentaram para lutar pela causa, o meu pai um deles. Uma brigada foi formada e colocou-se, via telégrafo, à disposição do comando revolucionário da capital. A resposta não tardou a chegar: esperava-se a qualquer momento uma invasão das tropas de Minas Gerais, que deveriam vir, seguramente, pelo caminho que passava por Orlândia. A força local deveria impedir a qualquer custo o avanço do inimigo. Montaram-se sentinelas no topo da colina, dia e noite, para vigiar a estrada que vinha de São Joaquim. Os dias passavam lentos e as noites arrastadas, e nada dos mineiros. O número de sentinelas foi se ...