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Mostrando postagens de setembro, 2019

BURACO NEGRO

“Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.”             Penso até que, matreiras que são, o nome de sua ciência resolveram trocar, hoje ela se chama tecnologia. O chaveiro que carrego no bolso tem dois centímetros e nele cabe toda a Enciclopédia Britânica. Desconfiado que sou, um dia o desmontei para ver o que tinha dentro: um quadradinho de metal do tamanho da unha de meu mindinho mais uma carreirinha de minúsculos grampos de prender papel. É ou não é bruxaria? Até mesmo o antigo idioma grego as bruxas conseguiram ressuscitar; hoje o mundo inteiro fala grego: é quilo, mega, giga, tera e por aí vai.             Conquistas da ciência vão se avolumando e não existem mais, como antigamente, sábios universais, agora só há especialistas. Experimente o amigo leitor ficar doente; até há pouco tempo bastaria procurar um médico e matava o assunto; hoje tem de saber ant...

PEQUENA HISTÓRIA SAGRADA

            Manifestação mais espetacular da Natureza, o fogo é ao mesmo tempo a mais reverenciada e a mais temida pelo gênero humano e isto se deve a seu poder criador e a seu poder destruidor. Nos tempos em que o homem antigo perambulava pelas paisagens geladas, à procura de alimento e abrigo, acostumara a se esconder do frio da noite dentro de cavernas. Não havia ainda domesticado um pedaço de fogo para aquecê-lo; ao contrário, o fogo que conhecia era um inimigo perigoso, proveniente de temporadas de raios, que caiam sobre árvores provocando incêndios. Desse fogo, que queimava seu alimento do dia seguinte, fugia espavorido, como animal que era e que sempre foi. Mas, diferente dos outros animais, tinha ele um defeito grave, era curioso. Um dia achegou-se de uma árvore em chamas e sentiu um calor bom, que espantava o frio com que o vento gelado lhe açoitava as costas. Daquele dia em diante, quando surgia a oportunidade, repetia ...

UMA VISITA DEMONÍACA

         O Demônio estava ali, sentado diante de mim. Não sei quanto tempo levei para perceber sua presença, absorto que estava na leitura do Fausto. De início pressenti uma mudança indefinível na luz, uma sensação de negrume envolvente, embora a página que lia estivesse mais clara do que nunca. Minha mão, o braço e até o pé, ao final da perna cruzada, mostravam-se intensamente iluminados e, no entanto, não se dissipava a impressão de negrura. A atenção na leitura não permitiu que eu percebesse que a pretidão era real e que engolira todas as formas da sala, tornando o pequeno círculo ao meu redor um oásis de brilho.          O comportamento da luz, naquele momento, fugia do padrão normal e contrariava as leis de reflexão. Nas noites de leitura — ultimamente quase todas — habituara-me a manter acesa apenas a lâmpada do abajur chinês. Sem outra fonte de luz a atenção se concentra mais facilmente nos serpe...

O ALEMÃO

Ave, amigo João! Há que tempo não nos falamos! Que estas mal traçadas o encontrem bem de saúde e paz. Cheguei a pensar em lhe ligar, mas Danilo achou melhor não incomodá-lo depois da cirurgia delicada por que você passou. Espero que voltemos a nos ver breve, sinto falta de nossos almoços e até de nossas brigas. Uma coisa me leva a fazer esta carta, uma preocupação: João, acho que estou perdendo a memória. Sei que quando a gente chega na idade em que estamos a memória começa a falhar, mas uma coisa é saber por ouvir dizer e outra é vivenciar. Como nascemos no mesmo e longínquo ano, fico curioso em saber se isso tem acontecido com você também. É algo assustador imaginar que a coisa possa evoluir e daqui a pouco a gente não lembrar de mais nada, ainda mais agora que a vida que a gente leva quase não tem mais presente e só passado. E se daqui a pouco nem ele mais tivermos, o que será de nós? A coisa começou com o esquecimento de palavras, não palavras complicadas, m...