Quando se é velho, há que se habituar a conviver com a gota, o artritismo e a filosofia. Além de faltar vigor físico para coisa melhor, a ameaça constante da morte parece estimular o pensamento, que puxa fôlego e mergulha em abismos metafísicos. Quando não toma o caminho mais fácil do misticismo... É a senilidade a grande forja de beatas de mantilha preta, que disputam os bancos de igreja nas missas matinais. Estando eu, outro dia, a reler algo sobre os pré-socráticos, pilhei-me a fazer pausa na máxima de Protágoras: “O Homem é a medida de todas as coisas”. Lembrou-me fato ocorrido na juventude. Foi assim. Estava pelos meus vinte anos, quando voltei pela primeira vez a Campinas. Ia em busca do passado. Hoje, ao meditar no caso, não posso deixar de estranhar a insólita motivação: na idade em que o normal da espécie pensa, sonha e respira futuro, lá estava eu a encompridar o olhar para o passado. Concluo que já então devia ser defeituoso. Mas, v...