Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de maio, 2011

O SOFISTA

        Quando se é velho, há que se habituar a conviver com a gota, o artritismo e a filosofia. Além de faltar vigor físico para coisa melhor, a ameaça constante da morte parece estimular o pensamento, que puxa fôlego e mergulha em abismos metafísicos. Quando não toma o caminho mais fácil do misticismo... É a senilidade a grande forja de beatas de mantilha preta, que disputam os bancos de igreja nas missas matinais. Estando eu, outro dia, a reler algo sobre os pré-socráticos, pilhei-me a fazer pausa na máxima de Protágoras: “O Homem é a medida de todas as coisas”. Lembrou-me fato ocorrido na juventude. Foi assim. Estava pelos meus vinte anos, quando voltei pela primeira vez a Campinas. Ia em busca do passado. Hoje, ao meditar no caso, não posso deixar de estranhar a insólita motivação: na idade em que o normal da espécie pensa, sonha e respira futuro, lá estava eu a encompridar o olhar para o passado. Concluo que já então devia ser defeituoso. Mas, v...

O FÓSFORO

Relia, ontem, o velho Machado, sempre com o mesmo prazer, quando adverti que também eu tenho o meu conto de escola para contar. Naturalmente não levo a pretensão de dizê-lo tão bem, nem mesmo de dizê-lo pior; seria comparar a estrela ao fósforo, e aos incomparáveis não se deve molestar. De minha parte, sou educado e respeitador, e prefiro deixar em paz a estrela inatingível, contentando-me em admirar-lhe fulguração e cor. Nem a escola, de fato, chegava a tanto; não passava de humilde jardim de infância, desses do tempo antigo. Ia-se de calções bufantes, azuis, e de camisetas brancas de malha, com números vermelhos bordados ao peito. Uma sacola de pano a tiracolo, também vermelha, escondia a merenda parca, pão e banana. O que era igual às de hoje, era o entusiasmo do menino, que desfilava com pompa seus orgulhosos quatro anos. O caminho de casa a escola era o ato mais importante do dia. Trajando o uniforme vistoso, julgava atrair os olhares de admiração e os ouvidos inventavam sentido n...

NÓ-NAS-TRIPAS

            Não é ruim a vida de aposentado, desde que se aplique um pouco de método na maneira de enfrentar o tempo. O problema do estreante é a falta de previsão: de um momento para o outro ele tem o tempo inteiro na mão e não sabe o que fazer dele. Acostumado que sempre esteve a sorvê-lo em doses homeopáticas, bebendo-o em pequenos goles, de repente acorda imerso em grande caudal e, se não estiver preparado, acaba por naufragar. Acredito que é o que acontece com a maioria; são os que trocam o trabalho pelo pijama, e só pensam em puxar uma soneca. A parada brusca e a ausência de objetivos emperram a máquina, e logo, o pijama de pano, de pouco uso, é trocado pelo de madeira. Contudo, se houver um plano, a vida pode ser muito boa. É o meu caso, o do Zé Duarte, o do Tranquilino das Neves, e foi, também, o do finado João Bosco. Aliás, o nosso plano, em muitos pontos coincidia: de manhazinha, longas caminhadas, para manter a forma; de...

PRETA PRETINHA

            O nome é Doroti, mas nem mesmo ela se lembra disto. Todo o mundo a conhece por Preta ou Pretinha, ou os dois juntos: Preta Pretinha. Nasceu no Espírito Santo e mora em Morro de São Paulo, na ilha de Tinharé, na Bahia. Faz biquínis de crochê, que vende para turistas. Mora com um filho de 18 anos e uma filha, de 15; os outros quatro continuam com o pai, no Espírito Santo. Casou contra vontade, aos 13 anos, com Carlucho, de quem não gostava — ameaçou até suicídio, não adiantou. Detestou o casamento. Ser mulher então era isto: ser usada a todo instante, parir um filho atrás do outro? Já estava grávida do segundo quando começou a tomar gosto por homem, mas foi um sentimento misturado com nojo. O marido era um jegue, queria a toda hora. O bruto não tinha um carinho, uma delicadeza, usava Pretinha como se fosse um urinol. Esvaziava nela a carga que lhe pesava no escroto, virava do lado e roncava.      ...