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Mostrando postagens de abril, 2011

ABISMO DE ROSAS

            Era no tempo da guerra. À noitinha as famílias se juntavam ao redor do rádio para ouvir as notícias. Os meninos mal entendiam aquele interesse dos adultos; afinal as coisas estavam acontecendo na Europa e a Europa era como se fosse um outro mundo, tão distante que não tinha nada a ver com a gente. Melhor seria acabar logo essa danada de guerra para se voltar aos serões ao pé do fogão e às boas histórias de assombração e de mulas-sem-cabeça. Pois foi nessa época que Antônio comprou o violão; talvez fosse seu jeito — menino grande que era — de fugir da guerra. Não era um violão muito caro que não coubesse em suas economias de barbeiro, mas não fazia má figura. De madeiro escuro, com cordão de marchetaria arrodeando a abertura e com cabo de marfim, fez enorme sucesso aos olhos da molecada. Quantas barbas e quantos cabelos havia custado! Mas que diabos, um homem há de ter um gosto na vida; há que tempos vivia ele, velho barb...

TRÊS DEMÔNIOS

            De onde venho? Quem sou? Para onde vou? Eis a santíssima trindade das questões filosóficas. Princípio, meio e fim. Poucos têm a sorte de encontrar respostas. A mim coube a verdade revelada, não por um deus qualquer, que eles não acreditam em mim, mas pelo Diabo, que deve me julgar parceiro.             A primeira revelação se deu em Campos do Jordão, no hotel do Satélite, recém inaugurado naquele ano de 2001. Era agosto, muito frio, mais de meia noite, e lia eu as histórias extraordinárias de Poe, no salão das lareiras, quando o Diabo apareceu. Bem vestido, com paletó de tweed e cachecol vermelho, ostentava basta cabeleira e barba cerrada, ambas grisalhas. Sua elegância inglesa era acentuada pelo cachimbo polido, do qual se desprendia a fragrância inconfundível do tabaco London Moisture , da Dunhill.             ...

TANTOLHÕES!

                Caro leitor, leitora amiga, peço desculpa por tratar de um caso tão triste; deveria respeitar sua sensibilidade, já que impossível será respeitar uma presumível fé religiosa, no pressuposto de que ela exista. É que, lendo outro dia uma página de divulgação científica, fui chocado com uma informação que não diria fantástica, nem extraordinária, nem estonteante, pois todos estes adjetivos são anêmicos para definir a força do seu impacto, e à falta de conhecer outros mais expressivos fico na angustiante situação de não poder adjetivar a referida informação. É sem dúvida tão triste que pode abalar a fé do mais piedoso; como pode Deus, se ele existe mesmo, permitir uma catástrofe de tamanha proporção? Se às vezes a simples morte de um ente querido pode arranhar nossa fé, se até a visão de um cadaverzinho de criança desconhecida, palestina ou israelense, nos faz duvidar de Deus, como não nos sentirmos u...

OLHOS NOS OLHOS

            O homem acendeu a luz e entrou no quarto. Pressentiu um movimento no chão e olhou: a barata estacou na hora e ficou a olhar para ele, olhos nos olhos. Não distinguia os olhos dela, por míope que era, mas sentia que o fitavam, assim como sabia também que não olhavam para qualquer parte do seu corpo mas sim para os seus olhos. Era o mesmo comportamento de todos os bichos que conhecia, todos também o olhavam direto nos olhos, fosse o cão Frederico ou a gata Heloísa — e até o Nardinho, o peixe dourado. Por que sempre o olhavam nos olhos? Tinha ele um metro e oitenta de altura e oitenta quilos, por que não olhavam os bichos para sua barriga, para a mão, para o joelho? Não! De todas as partes do seu corpo, vasto e disponível, escolhiam sempre aqueles dois pontinhos — os olhos; minúsculos se comparados à protuberância abdominal, à manzorra cabeluda ou ao joelho ossudo. Mas a todos esses alvos sobrepunha-se a estranha preferênci...

HUMANA PROVIDÊNCIA

            Pego-me a olhar para esse homem diante de mim. Velho e gordo, as manchas de senilidade salpicam-lhe a pele translúcida das mãos. Inertes, são mãos pálidas de onde nascem cordões roxos, que à maneira de raízes, por sob a pele, lançam-se para o alto e galgam os caules dos antebraços, estranhamente finos para o tamanho do corpo. O rosto é desbotado e comprido em demasia porque se une à calva, também cheia de manchas, e causam um efeito longitudinal, que parece dividir simetricamente o crânio, limitado por tufos de cabelos brancos e duas imensas orelhas. Nos olhos, o brilho — se algum dia existiu — está eclipsado pelos véus da catarata; e os peitos, salientes de gordura, são caídos como os de mulher pobre parideira de vintena. O abdome começa logo abaixo deles, em flagrante desrespeito à regra anatômica, e descreve uma curva contínua até as virilhas, as quais encobre totalmente. Por não se ver, supõe-se que um cinto aperte a...

O VELHO E O CÃO

Era velho, ranzinza e ateu. Tinha oitenta anos, enviuvara havia dez e só não estava completamente sozinho porque vivia com um cachorro, também velho como ele. Pegara o cão na rua, quando retornava do enterro da mulher. Era um vira-lata, ainda filhote, que perambulava sem destino, magro e abandonado. Levou-o consigo. Não por caridade, mas por cálculo: teria companhia para dormir à noite, na casa vazia. Embora ateu, tinha medo de fantasma. Medo que vinha dos tempos de menino, quando escutava, atrás da porta, as conversas de assombração dos adultos, ao redor da mesa, depois do jantar. Mais tarde ia dormir e arregalava os olhos no escuro, até que começava a ver manchas brancas a dançar em volta da cama. Aí apertava as pálpebras, enrodilhava-se em posição fetal e puxava as cobertas para cima da cabeça. Prendia a respiração e ficava a tremer, até que o sono, cheio de pesadelos, vinha resgatá-lo para outros perigos. Por mais que tudo isso fosse ruim, poderia ter sido pior; sempre havia mais p...

NOITE DE MINGUANTE

A noite, displicente, vai engolindo as horas com lentidão, sem romper o silêncio, que pesa como um sólido na penumbra da sala. A claridade do quebra-luz se derrama concentrada sobre o livro aberto em meu colo, não chegando a perturbar a sonolenta escuridão que abocanha uma parte de mim. Um observador descuidado julgará que leio, mas se prestar atenção perceberá que meu olhar não tem foco, que atravessa as páginas, perfura o chão de tábuas e transpassa o próprio planeta, pois ao infinito mira. Estou tão absorto que não ouço o silêncio, nem mesmo ao ser quebrado pelo uivo do vento. O carrilhão continua a bater as horas, mas bate para si mesmo ou para o mundo lá fora, não para mim, que permaneço ausente. De repente – estranha mudança de sensibilidade e percepção – um simples ruído na vidraça, um toque-toque raspado, semibatido, como se causado por garras ou bico de pássaro, é suficiente para me arrancar do estado cataléptico e me faz estremecer. Viro vagarosamente a cabeça para a janela e...

VOANDO COM PASSARINHOS

Casimiro cantava saudoso seus oito anos; eu, mais precoce, canto meus sete. Tinha essa cabalística idade quando o padrinho me deu de presente um par de tênis. Eram os meus primeiros, lindos, inteiramente brancos, como minha alma menina. No peito, um vulcão em erupção latejava forte e foi com sofreguidão que calcei o presente e desembestei para a rua, a correr caminhos e ladeiras, a pisar cimentos e chãos de terra. Corria tanto que levantava atrás dos pés uma poeira vermelha, que rodopiava em remoinhos; com o canto dos olhos tentava surpreender dentro deles, também a rodar, um barretinho, também vermelho como a poeira — o Saci. Mas o danadinho se escondia direitinho atrás do pó. Mas não me enganava não: sabia que ele estava ali. Não ia perder tanto remoinho. E como era ligeiro o serelepe! Com uma perna só, corria tanto quanto eu.             Cruzámos várias vezes, ele e eu, a pequena cidade onde nasci, na alta mogiana. Na estação de ...

DONANA

O doutor há de estranhar que o que vai ler está tudo direitinho, nos conformes. È que um vivente de muita leitura não se vexou de botar os pingos nos is e as vírgulas extraviadas, deixando a escrita plana, mas com algum desvão de sotaque da minha terra, pois é seguro que barba e cabelo cortados em barbeiro não disfarçam as alpercatas nem o gibão de couro do matuto. Rústico sou, ao natural ou tingido de leituras, mas maínha me ensinou, desde o berço, a ser agradecido. Por isso a primeira palavra é para homenagear esse vivente das Alagoas, que se desvia dos seus cuidados para cuidar desta parolagem. Não será ela sem sentido, apois, se o peixe sempre morre pela boca, ao bicho homem é dado, por ela, alcançar a salvação ou a perdição. Por rezas e bem-querenças ganha uma, por maleditos, a outra, quando não lhe protege o facão bem temperado e o braço forte. Não será o caso presente, pois na justiça de Deus confio e à dos homens recorro. Ao Céu, rogo com a mediação do meu querido Padim Ciço, s...

O MULEQUIM

            O mulequim magrim peleosso joga bola descalço no gramado verde. Chuta corre atrás alcança. Chuta de novo, de novo corre atrás. Alcança. Sempre. No alto do céu o Sol com inveja derrama raios de domingo e brilha e rebrilha como um quadro amarelo de Portinari. Também eu, maduro, tenho inveja e quero voltar aos tempos verdes dos meus gramados de infância: leve magrelo, jogar bola até cansar e depois repousar com o amigo Casimiro debaixo das bananeiras e à sombra dos laranjais.             O mulequim magrim camisa 10 faz embaixadas com a bola branca de borracha alheio às voltas que o mundo dá, mundo que gira no espaço: bola azul. Será o mundo-bola-azul brinquedo de outro mulequim que chuta bola em gramados celestiais? Na cabeça do mulequim camisa 10 a certeza da não dúvida: cabeça de mulequim não foi feita para pensar vãs filosofias de Guilherme inglês. Cabeça de mulequi...

ANGELUS

             Seis horas da tarde, o sino da matriz chama os fiéis para a oração, quebrando o silêncio que dormia no ar morno. Beatas atrasadas cruzam pressurosas o jardim da praça. O Sol já se pôs há algum tempo, mas, distraído, esqueceu de recolher alguns raios que pinicam as partes baixas de umas poucas nuvens vadias, que cismaram de fazer trotoar pelo caminho lusco-fusco do horizonte, pouco acima da linha que costura o Céu na Terra dormente. Como marimbondos de fogo, aferroam as nuvens que alcançam e as fazem sangrar com aquele sangue aguado que é próprio de sua hídrica natureza. Do que resulta, visto assim de longe, que uma faixa encarnada intermitente pareça boiar na serenidade de um oceano de ar. Um poeta que visse o quadro talvez usasse de uma expressão mais requintada, do tipo “fímbria carmim” ou “serpente escarlate” para descrever a cena; mas a mim, humilde prosador, compete-me manter a compostura de uma mente cartesia...

A CANETA

Ou Lobo em Perigo / Ou Xuxu quase frito / Ou   Canto em Falsete / Ou Um Casal Feliz             Ele chegara finalmente àquela idade que, não sei por que, dizem ser a idade do lobo, que é quando o homem macho está sempre de prontidão para caçar qualquer fêmea incauta que lhe cruze o caminho. Note-se o uso da expressão redundante homem macho. Antes que me critiquem, declaro que não foi por descuido, não, foi de propósito que a empreguei. Na modernidade dos dias de hoje a palavra homem, por si só, não carrega mais, como antigamente, o sentido original de gênero, em oposição ao que feminino é. Trans-sexualidades várias embaralham como nunca a diferenciação de sexos, não sendo mais possível uma descrição precisa de homem ou mulher sem a presença esclarecedora de um adjetivo definidor. Assim sendo, fica assentado de princípio que o nosso homem, o herói desta historieta, é um homem macho.  ...

VICENTE CELESTINO

            Esta historieta aconteceu há muitos anos, ainda na primeira metade do século passado e, portanto, todas suas personagens já estão mortas há bastante tempo. Por que então contá-la agora? Porque, creio eu, os mortos ensinam aos vivos. É uma história de fé, de fidelidade, de coragem, de amor. Só por isto valeria ser contada. Mas também tem ignorância, truculência e fanatismo, igualzinho aos dias de hoje, demonstrado é que a espécie humana sempre evolui na busca do poder, e nunca em sabedoria.             Passou-se a história em uma pequena cidade do interior paulista, à beira da linha da mogiana. A época é o final dos anos 30, pouco antes da Grande Guerra. O avanço tecnológico de então era o rádio e as famílias se reuniam ao redor dele, à noitinha, para ouvir em meio a chiados notícias do distante e quimérico mundo. Havia também progra...