Era no tempo da guerra. À noitinha as famílias se juntavam ao redor do rádio para ouvir as notícias. Os meninos mal entendiam aquele interesse dos adultos; afinal as coisas estavam acontecendo na Europa e a Europa era como se fosse um outro mundo, tão distante que não tinha nada a ver com a gente. Melhor seria acabar logo essa danada de guerra para se voltar aos serões ao pé do fogão e às boas histórias de assombração e de mulas-sem-cabeça. Pois foi nessa época que Antônio comprou o violão; talvez fosse seu jeito — menino grande que era — de fugir da guerra. Não era um violão muito caro que não coubesse em suas economias de barbeiro, mas não fazia má figura. De madeiro escuro, com cordão de marchetaria arrodeando a abertura e com cabo de marfim, fez enorme sucesso aos olhos da molecada. Quantas barbas e quantos cabelos havia custado! Mas que diabos, um homem há de ter um gosto na vida; há que tempos vivia ele, velho barb...