Quando eu morrer, ao contrário de Noel, vou querer choros e velas, mas não muito porque Borges me ensinou que Beatriz Viterbo nem mal morria e já começava a ser esquecida pelo mundo. É a lei natural. Mas que me chorem pelo menos um pouco, é de bom tom, e que não faltem outro pouco de amigos para contar piadas no corredor do velório, sem ferir o decoro que a ocasião exige. Mas que não me enterrem em cemitérios, a eles tenho aversão. A quantos cemitérios já fui, quanta gente ajudei a plantar, como diria Lins do Rego. Ainda outro dia estive em um dos mais elegantes da cidade, desses antigos, de túmulos e esculturas de mármore. Chamou-me a atenção um mausoléu mal conservado. Família Simões. Na lápide, uma corrente de cobre azinhavrado pendia de dois florões escurecidos; uma portinhola de ferro enferrujado e vidros sujos escondia uma imagem de algum santo; dois vasos de flores, sem flor, com água de chuva. Em meio a essa desolação, uma lousa vertical acusava os nomes dos ocupantes esqu...