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Mostrando postagens de julho, 2013

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer, ao contrário de Noel, vou querer choros e velas, mas não muito porque Borges me ensinou que Beatriz Viterbo nem mal morria e já começava a ser esquecida pelo mundo. É a lei natural. Mas que me chorem pelo menos um pouco, é de bom tom, e que não faltem outro pouco de amigos para contar piadas no corredor do velório, sem ferir o decoro que a ocasião exige. Mas que não me enterrem em cemitérios, a eles tenho aversão. A quantos cemitérios já fui, quanta gente ajudei a plantar, como diria Lins do Rego. Ainda outro dia estive em um dos mais elegantes da cidade, desses antigos, de túmulos e esculturas de mármore. Chamou-me a atenção um mausoléu mal conservado. Família Simões. Na lápide, uma corrente de cobre azinhavrado pendia de dois florões escurecidos; uma portinhola de ferro enferrujado e vidros sujos escondia uma imagem de algum santo; dois vasos de flores, sem flor, com água de chuva. Em meio a essa desolação, uma lousa vertical acusava os nomes dos ocupantes esqu...

VENTO

Hesitei algum tempo se deveria colocar o artigo definido no título acima e seguir a tradição de Gogol, Machado e outros mestres, que escreveram O Capote, O Nariz, O Relógio de Ouro, O Medalhão etc. Convenci-me de não fazê-lo ao examinar a natureza desta minha escrita, ou, que seja mais bem dito, a natureza da pretensão do que almeja ser, visto que nem embrionária ainda o é. E aqui já se vê que escribas sem inspiração espremem seus cérebros, torcem-lhes os miolos a ver se conseguem algum suco de suas musas adormecidas. O poeta iluminado, antes de por no papel a primeira letra de seu verso, sabe já o inteiro teor do poema; lutará ainda com uma ou outra rima, mas a peça toda já lhe é presente, com suas imagens claras e distintas. Esta inspiração, tão contraditoriamente cartesiana, define o verdadeiro poeta e o distingue de nós, simples mortais escrevinhadores. Feita esta advertência, voltemos ao início do texto. A meu ver, o artigo definido – e o próprio nome o diz – determina o substa...

NOS TEMPOS DA GAROA

             Ao final da década de 50 São Paulo não chegava a três milhões de habitantes, as ruas eram limpas e sem cheiro e amarrava-se cachorro com lingüiça. Estava eu iniciando minha vida de bancário e — recordo — para se fazer remessa de numerário (era assim que se falava na época), parava-se um taxi na porta da agência e lá íamos dois funcionários a carregar uma mala cheia de dinheiro. Num dia furava o pneu na Marginal e a gente ajudava o motorista a trocá-lo, noutro dia o trânsito entupia no Largo de São Bento e não tínhamos a menor dúvida: saltávamos do carro e íamos, lampeiros, pela Rua Líbero, com a mala cheia, até a sede central, na Av. São João. Nunca se soube de nenhum assalto a esses malotes bancários e nem isso passava pela cabeça de ninguém.             Rapaz magrelo (quem dera hoje!), fazia Filosofia na USP da Maria Antônia. Trabalhava na Penha até às 6 da tarde e saía correndo p...

MUNDOS PARALELOS

Não precisa ser especialista nem ter inteligência aguda para se saber destas coisas, basta ler jornais ou ver televisão, sempre haverá notícia das últimas teorias que pululam nas fronteiras da ciência. Não faz tempo ocupou as manchetes a descoberta do bóson de Higgs, há poucos anos, a conquista da fusão do átomo a frio. Fria mesmo era esta notícia, engodo de alguns cientistas, enquanto aqueloutra está sendo acreditada, embora padeça de confirmações. É assim o mundo científico, verdades e mentiras se sucedem ou vêm juntas, pois do homem se originam; faz parte da natureza de nossa espécie, por erro ou dolo inventa-se o falso, mas também por gênio ou acaso descobre-se o novo. Teorias há que, bem ou mal intencionadas, permanecem no limbo da indefinição, na estreita fronteira que separa o real do imaginário. Algumas ali ficam por anos, outras, por eras; de lá sairão para a glória ou para o esquecimento. Pois ali está há um tempão a teoria do Multiverso, existência de múltiplos universos,...

ESQUERDA OU DIREITA?

             Meu querido diário:             Há muito não nos falamos, mas você sabe que não é pouco caso, pura falta de tempo. Tanta coisa, escola, trabalho, cabelo, amigos, namorados, como é possível uma menina como eu ter tempo para tudo isso? Bem verdade que se fosse mais metódica, minha mãe diz, seria a vida mais arrumada. Mas não sou.             Mas não é disso que quero falar. Do meu novo namorado. LINDO! O nome dele é Carlos, bonito, alto, atlético, conheci na escola, 3º E. Quando ele sorriu para mim, arriei logo a bateria. Começo de namoro, sabe como é, né? a gente faz tudo para agradar. Pois foi assim que ele me levou para assistir a uma partida de futebol.             Menino, que mico! Você sabe que não entendo nada desse negócio. Chego a ter raiva do meu pai que fica o d...