Era no tempo da guerra. À noitinha as famílias se juntavam ao redor do rádio para ouvir as notícias. Os meninos mal entendiam aquele interesse dos adultos; afinal as coisas estavam acontecendo na Europa e a Europa era como se fosse um outro mundo, tão distante que não tinha nada a ver com a gente. Melhor seria acabar logo essa danada de guerra para se voltar aos serões ao pé do fogão e às boas histórias de assombração e de mulas-sem-cabeça. Pois foi nessa época que Antônio comprou o violão; talvez fosse seu jeito — menino grande que era — de fugir da guerra. Não era um violão muito caro que não coubesse em suas economias de barbeiro, mas não fazia má figura. De madeiro escuro, com cordão de marchetaria arrodeando a abertura e com cabo de marfim, fez enorme sucesso aos olhos da molecada. Quantas barbas e quantos cabelos havia custado! Mas que diabos, um homem há de ter um gosto na vida; há que tempos vivia ele, velho barbeiro, a sonhar com isso! O Paraguaçu, que lhe havia assessorado na compra, garantira:
— É de boa lavra! Sinta a empunhadura...
Antônio tomara o violão nos braços com carinho, como se fosse um filho recém nascido, mas não atinou com o modo de cumprir a sugestão do amigo. Fingiu entender, fez que sim com a cabeça e comprou-o.
Trouxe-o para casa com o mesmo orgulho com que trazia às sextas-feiras o quilo de alcatra, e da mesma forma rude foi recebido pela mulher:
— Êh! Para que isso agora?
Para outro seria uma recepção gelada, mas para ele aquilo equivalia a uma aprovação. Conhecia a mulher que tinha, amargo-azeda, que recebia o embrulho da carne de cara fechada, mas ia para o fogão preparar os bifes e jamais se enganava com o ponto:
— Cruz, credo! Vá gostar assim de carne crua...
Alguma razão não deixava ela de ter, pois a carne vinha escorrendo sangue pelo prato e Antônio se deliciava só de a ver: saudava com olhinhos brilhantes e com um esfregar de mãos aquele bife fumegante, suculento, cheiroso... Quase não usava faca; puxava com a ponta dos dedos as fibras, que se entreabriam vermelhas, e as ia degustando com devoção, como se fora uma velha beata a engolir hóstias.
A cena se repetia toda sexta-feira e era o modo como aquela mulher de gestos secos festejava o marido que Deus lhe dera.
Aprovada a compra, feliz, Antônio, naquela primeira noite, tomou o violão com cuidados de noivo. A mão sentia a textura da madeira como quem sente a pele da mulher amada e com luxúria perdia-se no delírio de suas curvas. Afagou lentamente a haste como a um pescoço delgado e escorreu os dedos pelas cordas como se acarinhasse cabelos. Trêmulo, deteve-se sobre a abertura, abismo de sonhadas ressonâncias e mistérios e, com a sofreguidão do desejo acumulado e a inépcia da vez primeira, moveu, frementes, os dedos. O violão respondeu, indolente:
— Dim! Dom!
Desse dia em diante era vê-lo todas as noites a dedilhar o instrumento. Comprara um manual e seguia as lições com afinco, e já havia adquirido alguma habilidade quando o Paraguaçu veio conferir o aprendizado. Foi uma noitada inesquecível. Depois de ouvir, corrigir e aprovar, deu ele uma audição especial. O violão gemia nas valsas e soluçava com os chorinhos. Antônio dividia-se, entre ciúme e admiração, por ver o instrumento entregar-se tão completa e desavergonhadamente a um estranho, vibrando ao toque de suas mãos como um animal tomado pelo cio, e inveja (por que não!) da beleza que aquelas mesmas mãos, profanas mas geniais, dele tiravam. Se escrúpulos teve, acabou por render-se quando o mestre tocou o Abismo de Rosas. A tristeza infinita da melodia fez vibrar o coração do barbeiro como um diapasão apaixonado. Quis porque quis aprender aquela música.
— Olhe que esta não é fácil, Sr. Antônio... — advertiu Paraguaçu.
Não adiantou, ele queria aprender. Estava encantado.
Começou então a luta do velho barbeiro com o Abismo de Rosas; todas as noites no violão a dedilhar:
— Dim! Dim! Dom!
Avançava e recuava; repetia e repetia. Alegrava-se com cada progresso. Aos poucos, como quem tira água de pedra, foi conseguindo. Só que tinha uma passagem complicada, que não havia meio de aprender, e que ligava a primeira à segunda parte; chegava ali, errava. Repetia, insistia, mas nada... A coisa não saía. Voltava então ao início da música, começava tudo de novo, porém quando chegava na bendita passagem, tropicava outra vez. Decidiu ir em frente, lançar-se logo à segunda parte; depois voltaria ao mata-burro. Com muito suor tirou-a inteira. Só faltava mesmo a maldita passagem, que não saía de jeito nenhum. Voltou a tocar a valsa toda, tropeçando sempre naquele lugar. A bem da verdade, não tocava de todo mal, as pessoas reconheceriam com facilidade o Abismo de Rosas. Mas era um toque burocrático, mecânico; não transmitia emoção. A dificuldade técnica funcionava como um véu diáfano, que permite a visão da carpintaria que se esconde por detrás de toda obra de arte, e que compete ao intérprete ocultar com sobreposta camada de virtuosismo. Jamais admitiria o velho barbeiro, mas não seria nunca um intérprete.
Persistente que era, tocou o Abismo de Rosas por uns dois ou três anos, sempre com o mesmo tropeço. Tocava todas as noites, sem incentivo — a família cedo se cansou de ouvi-lo e voltou a se reunir ao redor do rádio e de outras guerras. Solitário, ele próprio acabou por se cansar à medida que os dias sem progresso, impiedosos, corroíam seu sonho. Deu de espaçar os exercícios e de esquecer o violão a um canto da sala, até que não tocou mais. Guardou-o então em cima do guarda-roupa, dentro de uma capa de lona e veio sentar-se também ele ao pé do rádio.
Morria o sonho de Antônio como costumam morrer os sonhos — mansamente, sem alarde, sem foguete.
Morto continuaria, não fosse o neto a ressuscitá-lo. O barbeiro reanimou-se, seus olhinhos luziram com o mesmo brilho da alcatra das sextas-feiras, afinal alguém da família, sangue do seu sangue (era um tanto melodramático, o barbeiro), iria continuar a missão que ele havia iniciado. Deu o violão de presente ao garoto como quem dá uma filha em casamento: ficou a esperar os frutos.
Que não vieram. Com dez anos de idade e compenetrado, ia o neto três vezes por semana tomar aulas, com o violão às costas. Um belo dia, porém, desentendeu-se com outro menino e quebrou-lhe o violão na cabeça. A cabeça, que devia de ser dura, se salvou, mas o violão ficou imprestável e foi jogado fora.
O neto desistiu da música e o avô do sonho.
O neto é hoje engenheiro e o avô uma lembrança.
=*=
Hoje em dia ninguém mais toca o Abismo de Rosas, saiu de moda. Mas de vez em quando me lembro emocionado de Antônio. Pode não ter sido um grande violeiro, mas foi sem dúvida o mais sublime que conheci.
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