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Mostrando postagens de setembro, 2015

O HOMEM EVANESCENTE

            Da Silva nasceu no ano de 39, junto com a Grande Guerra, Se fosse alguém importante os jornais do dia seguinte noticiariam NASCEU DA SILVA; vieram, porém, apenas com as manchetes da guerra. Desta maneira simples o mundo costuma demonstrar seu desinteresse pelas pessoas comuns, e Da Silva era uma pessoa comum, o mundo ainda não sabia que ele viria a ser no futuro o Homem Evanescente. Sei-o eu, não porque o narrador de histórias quase sempre sabe tudo, mas porque o conheço pessoalmente, somos amigos e, mais que isso, sei-o porque o futuro já chegou aos dias de hoje e agora só não o sabe quem é distraído.             Sua infância foi tranquila, longe daquela guerra, pois nascera ele em uma das repúblicas da sempre atrasada América do Sul e, por aqui, não importamos as guerras dos outros, bastam-nos as nossas. Da Silva comeu e bebeu o que lhe foi ofertado, brincou...

CARAPINHA BRANCA

            A manhã não nasceu ainda, mas vem logo. A noite, grávida de nove horas, empalidece e inicia os trabalhos de parto. Pinta a abóbada celeste de muitos tons de cinza, escuros no poente onde duas estrelas desmaiadas teimam em continuar piscando, e quase azuis no leste, já manchados de algum amarelo envergonhado. São os prenúncios do Sol, que vai escalando a linha do horizonte. Breve será dia, mas ainda antes dele irromper Bastião se abaixa no canto da praça e desfaz a tranca que prende a porta de aço ao chão. Neste momento uma janela se ilumina no prédio em frente e deixa escapar um feixe de luz que atravessa a penumbra da rua e, auxiliado pela brisa que brinca nas ramagens de um flamboyant, logra passar um pedaço de si por entre as folhas tenras, um tantinho suficiente para ricochetear na ondulação da porta da banca e atingir o pescoço e o lóbulo da orelha do jornaleiro, talvez numa vã tentativa de se fazer perceber. Ti...