Virgínia
e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos,
mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha
com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos
domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio
público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este
narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.
Verdade
que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos,
entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos
como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É
um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas
senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, que
lembra um toco de vela bruxuleante e não mais as fogueiras da juventude? Vós,
que sois moços, e que se queimam com gosto nas chamas de tais fogueiras, não
são capazes de avaliar o que é a vida dessas mulheres, mergulhadas nas cinzas
frias que a memória guardou.
Escriba
não tem idade, mas sabe da vida muito; não soubesse, não seria escriba, iria
ser vendedor de enceradeiras. Pecados há de dois tipos, os veniais e os
mortais, e o que distingue as duas classes é o mal que podem causar; se o mal
não for grande, o pecado será leve. No caso de Virgínia e Anália ele é sempre
leve, dado que o mal é dito intra muros e dali não sai para ouvidos
outros. A exceção são os ouvidos dos narradores, sempre aptos a captarem
retalhos de frases que o vento traz, mas esta exceção não altera a
classificação do pecado venial, pois a Corporação dos Escribas tem um estatuto
rígido: nenhum mal há de causar o que o escriba narrar. Este artesão,
sem faltar com a verdade, tem sempre o cuidado de botar máscaras em suas
personagens. Com os nomes dados de Virgínia e Anália ninguém descobrirá as
verdadeiras personas que estes nomes escodem.
Voltemos
às nossas senhorinhas, já andando pela avenida, agora antecipadamente perdoadas
dos males que vão falar e que são por mim acompanhadas de perto, poucos passos atrás.
Eis que cruza conosco outra senhora, também não moça, muito magra, cabelos
compridos e brancos, vestindo roupas pretas e longas, de nariz adunco, o qual é
rivalizado em tamanho por uma verruga instalada na maçã do rosto.
—
... bruxa da Branca de Neve...
Como
é verão e o sol brilha forte no céu sem nuvens, as mulheres, naturalmente mais
espertas que os homens, trajam poucos panos, a maior parte com vestidos ou
saias, sempre curtos, por baixo dos quais as aragens frescas costumam invadir
intimidades. Esta não foi a escolha de uma jovem que agora cruza nosso caminho.
A moça veste um macacão de brim que lhe cobre o corpo do peito aos joelhos; por
baixo, uma blusa branca de meia manga, aberta em colarinho; nos pés, botinas
pretas. Os cabelos são curtos e tosados do lado esquerdo bem acima da orelha.
—
... de dia é Maria, de noite é João...
Agora
é outra jovem que conosco cruza e, ao contrário da anterior, esta moça exala, misturada
ao perfume, a antiga força tectônica que obriga todos os pescoços masculinos a
se quebrarem para olhar, assim que ela passa.
—
... é porque ela pisa torto...
Quebro
também meu pescoço e constato: um andar bamboleante, belas pernas. O vestido
amarelo, salpicado de violetas, reflete o sol e espelha o anil do céu. O tecido
leve, cingido ao meio por um estreito cinto, também azul, cobre sem disfarçar o
bamboleio mole das ancas duras. Pipoca em um desvão de meu cérebro a lembrança da
música da garota de Ipanema, em seu doce balanço a caminho do mar... A
bem amada garota de Ipanema!
Um
tranco em meu braço quebra a magia: é o Tião que tromba comigo.
—
E aí, meu velho, vamos ver hoje o jogo do Timão?
Enquanto
procuro a resposta que devo dar, a bela e as feras se perdem no oceano de gentes.
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