Era noite de minguante. A Lua, só um pedaço dela, ia alta no céu e não perdia a chance de se esconder atrás de algum floco de nuvem. Escondia, mas logo reaparecia, pois a nuvem corria rápido, enquanto a Lua, velha decrépita, mal se movia, Ficava então esperando, com a paciência dos astros, que outro floco incauto lhe passasse por baixo para nele se aboletar, ainda que só por dois instantes. Evitava assim se mostrar, só um pedaço, pois, como tudo que é celeste, tem ela alma de mulher, prefere se exibir quando está cheia e resplandece, ainda que depois carregue algum remorso por ter sido causa do apagar de algumas estrelas. O bem de alguns é o mal de outros. É da vida dos homens, e é também da vida dos astros. Sentado na sala de estar, um livro aberto nos joelhos, mal percebia eu o movimento celeste que se desenhava na janela, e nem mesmo as volutas ...