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A SOMBRA BÊBADA

                Parei de beber, minha sombra, não. Tenho me mantido sóbrio o tempo todo, mas ela, só parte do dia; à tarde está sempre bêbada. Mas mesmo de manhã, quando ainda se encontra sóbria, tem ela me causado algum desconforto, como por exemplo quando vou à praia, logo cedinho, para dar uma caminhada. O Sol, que acaba de acordar, tira a cabeça de sob as cobertas do horizonte e espia o mundo com seu olho flamejante. Espia-nos, a mim e a ela, de modo preguiçoso, pachorrento, esticando a sombra de maneira desmesurada. Quero andar pela fímbria da água, molhando os pés, pisando espuma, a pensar distraído no sentido da vida ou simplesmente na promissória que vence hoje, mas, por causa dela, sombra, sou obrigado a correr. Eu, bojudo, grávido dos anos, que são muitos. Ela, longilínea, tirando proveito de que o Sol me fere pelas costas, e que não consegue portanto projetar no chão o desenho do abdome. Eu, pesado, ela, leve; eu, lento, ela, serelepe; eu, velho, ela, moleque. Ponho-me a andar, e ela se põe a correr. Como não quero que se desgarre de mim — tenho medo — corro atrás dela. Tenho medo que crie vida própria, como na história de Andersen, que termine por se voltar contra mim e me aniquile no final, como acontece lá na história dele. Por isso corro. Corro com esforço, atrás da barriga e atrás da sombra sem barriga.
            O resto do dia se passa estafante e outros dias estafantes se sucedem, pois ao homem foi dado ganhar o pão de cada dia com o suor de seu rosto. E se, numa tardinha, quando é o caso, decido voltar à praia para correr, sou obrigado a andar, apenas. Por causa dela. É que sempre, ao final dos dias, como já disse antes, a sombra se mostra bêbada, e, se quero correr — para purgar as tensões do dia — ela apenas se arrasta. Sou forçado a parar e esperar por ela. Se tento de novo, outra vez sou obrigado a parar, aguardar. Do que resulta uma corrida sincopada que logo interrompo, quando me convenço da inutilidade dos esforços.
            Intrigou-me, de início, o fato de continuar a sombra bêbada mesmo depois de ter eu parado de beber. O bom senso me sugeria que, cessada a absorção de álcool pelo corpo, deveria cessar também o efeito etílico na sombra. Mas isso não acontecia. Contrariando o senso e a ciência, a sombra sempre chegava bêbada ao fim do dia. Passei a prestar atenção nos acontecimentos diários, na esperança de encontrar uma explicação e, de fato, não tardou o mistério a se esclarecer. É que todo dia, à tardinha, na hora em que o Sol encomprida as sombras, tinha eu o hábito de passar defronte de um botequim, desses comuns, de todas as ruas, onde os bêbados de sempre se põem a discutir com proficiência doutoral as causas e os porquês do Homem e do Universo. Não era diferente aquele botequim; tinha sempre dois ou três fregueses encostados ao balcão, entornando a produção de algum alambique. Notei que nessas ocasiões minha sombra lambia o balcão onde se encontravam os martelos de cachaça, e suspeitei que talvez estivesse aí a origem de sua embriaguez. Decidi experimentar, pois no fundo sou um homem de ciência, e, corajosamente, alterei meu hábito: passei a usar a calçada do outro lado da rua. O efeito foi imediato — sarou a bebedeira da sombra.
            Mas ela escapou de um mal para cair noutro: entrou em crise existencial.
            Não mais corria, nem andava, nem se arrastava quando chegávamos à praia; ela se punha quieta, estática, o que me obrigava a sentar na areia e ficar olhando para ela. Ficava assim, olhando para ela e ela, creio eu — pois não se consegue distinguir de onde miram os olhos das sombras — deveria estar também a olhar para mim. Ambos em silêncio. Silêncio que era quebrado apenas pelo marulho das ondas e por um ou outro grito de gaivota a chamar o companheiro para dormir.
            Essa situação perdurou por algumas semanas, sem alteração, até que num belo dia a sombra rompeu o silêncio e disse mais ou menos assim: se há uma coisa que não entendo é o tal UNO de Parmênides, pois, se a realidade toda deriva da unidade, do número um, como é que ela se manifesta na multiplicidade dos fenômenos naturais?            Confesso que não sei o que me aturdiu mais, se a falantice da sombra ou a estranheza da pergunta. Sei apenas que balbuciei uma explicação qualquer, que deu origem a uma discussão filosófica que, como toda discussão filosófica, deu em nada. Só mais tarde, em casa, mal refeito da singular ocorrência, pus-me a refletir no caso. Não sobre Parmênides, que particularmente não me toca, mas sobre o peculiaríssimo comportamento da sombra. Surpreendi-me primeiro por não ter me surpreendido antes, o que se me afigurou uma falha grave para quem, como eu, se orgulha de possuir uma mente lógica. Como podia a mera passagem sobre o balcão do botequim causar a embriaguez da sombra? Nem era uma passagem assim tão demorada, uma vez que eu sempre apressava o passo quando chegava ao boteco, para não morrer de inveja dos homens que bebiam sem se preocupar com o teor de gordura de seus fígados, nem com os níveis do colesterol no sangue ou na pressão deste dentro das veias. Bastava uma ligeira lambida e a sombra se tornava tão bêbada como se eu próprio houvesse entornado muitas doses, como fizera até algum tempo atrás. O que era mais estranho ainda é que o efeito se produzia até mesmo nos dias nublados, quando o Sol encoberto não projetava sombras nem no chão nem no balcão. Não demorei, contudo, a encontrar uma explicação para o fato — e era tão simples. Não é somente o Sol que produz sombras, mas qualquer fonte de luz. Logicamente que a sombra será tão mais densa quanto mais forte for a luz que a provoca, mas haverá sempre sombra enquanto houver luz, por mais tênue que seja esta. Se temos dificuldade de enxergá-las em condições de luz fraca, isto se deve tão somente à nossa própria deficiência visual e não a uma possível inexistência delas. Elas estão sempre lá, nós é que às vezes não as vemos.
            Confesso que cheguei a ficar satisfeito com a fineza deste raciocínio e senti-me envaidecido de possuir uma razão que, de maneira tão metódica, era capaz de resolver tão intrincada questão. Apercebi-me de que aquele arrazoado servia igualmente para explicar de onde vinha o conhecimento filosófico que a sombra aparentava possuir: só podia ser dos livros que eu lia. A luz da luminária de leitura ficava atrás de minha cabeça e devia de projetar alguma leve sombra sobre a página lida. E assim, mais outra questão delicada se resolvia.
            O que não se resolvia, porém, era o comportamento novo da sombra a partir da mudança de seu estado, de bêbada para sóbria. Fazia eu comparações com o que sucedera comigo próprio, quando de idêntica alteração de estado: não se dera então qualquer mudança de comportamento. Apenas era mais infeliz sóbrio do que fora bêbado, mas tinha, como contrapeso, a esperança de que os índices médicos viessem a melhorar com o tempo. Afinal, não seria melhor ser infeliz e saudável do que feliz doente? Se bem que feliz, feliz mesmo, é um exagero retórico, que eu percebia silenciosamente e que debito a uma certa licença poética. Mas — ainda seguindo as comparações — é certo que a sombra não tinha como eu a desvantagem da hipertensão arterial ou dos triglicerídeos aumentados, pois não possui sistema vascular, o que, sendo um bem em si, acaba por ser um prejuízo relativo, porquanto, não tendo nenhum benefício, é-lhe penoso submeter-se a privações sem causa. Se eu mesmo, com um prêmio futuro, a saúde, sentia-me tão infeliz, que dirá a pobre sombra, que nada tinha a ganhar com a abstemia? Não é de admirar tivesse ela escorregado pelos esconsos da filosofia. Ah, sim, esquecia-me dizer que outras preocupações filosóficas revelou ela em diversas ocasiões, uma vez sobre a mônada de Leibniz, outra, sobre o cógito cartesiano, outra, ainda, sobre o imperativo categórico de Kant. Particularmente sobre este último, não conseguia entender a obrigatoriedade da sua observância na ação moral, quaisquer que fossem as circunstâncias. Argumentava com o exemplo clássico da criança que se afoga num lago e com o observador, que, mesmo sem saber nadar, recebia de seu eu moral o comando de se atirar na água para salvá-la. De que adiantaria cumprir o imperativo categórico, se o resultado final seria a morte da criança, ainda acrescida, no caso, com a morte do agente ético? Não seria o caso de abrandar a imperatividade com a noção prática da utilidade? Em vez de um imperativo categórico extramundo e atemporal, não seria melhor um imperativo condicional, sujeito às limitações da realidade concreta?
            Abra-se um parêntese neste ponto para notar a insipiência das noções de boa lógica de minha querida sombra. Obviamente incompatíveis, não se dava conta ela da impossibilidade de juntar numa mesma idéia os conceitos excludentes de “imperativo” e de “condicional”. E, para não trazer a este relato, que pretendo enxuto, outras discussões de caráter metafísico, fecha-se sem delongas o parêntese.
            Obviamente que aquelas tertúlias vespertinas acabaram por me cansar. Vencida a fase inicial do encantamento do inusitado, sobreveio a semgracice daquelas discussões intermináveis, assemelhadas, para meus ouvidos mundanos, às disputas escolásticas medievais. Procurava evitá-las, mas a sombra sempre achava um jeito de levar a conversa para aquela banda. Deixei de ir à praia; não adiantou: a sombra passou a conversar em meu quarto até altas horas da noite. Tentei apagar a luz, mas ela continuou a conversar, pois o escuro do quarto nunca era suficientemente escuro para que ela deixasse de existir. Ainda que eu não a visse, ela permanecia lá e, com ela, a malfadada filosofia. Estive a ponto de me desesperar, quando surgiu uma idéia salvadora, que decidi por em prática.
            No dia seguinte, à tardinha, voltei corajosamente ao meu hábito antigo: passei outra vez pela calçada do botequim, só que desta vez bem devagar, dando tempo a que a sombra pudesse lamber demoradamente os martelos de cachaça sobre o balcão. A seguir, fui à praia.
            Lá chegando, pude constatar com alegria que a sombra encontrava-se totalmente bêbada. Arrastava-se, trôpega, atrás de mim. Não disse mais nenhuma palavra, nem naquele nem em qualquer outro dia, porquanto tomei o cuidado de não deixar que lhe faltasse nunca uma boa dose da marvada pinga.
            A uma sombra filósofa, sempre prefiro uma sombra borracha.

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